Ásia

um monge em Siem Reap

Minha relação com o Camboja não começou muito bem. Como dizem em inglês,  “we started off on the wrong foot” – começamos com o pé errado.

No primeiro dia encontrei uma brasileira que tinha sido assaltada na noite anterior e precisava de ajuda. Já fiquei assustada e mudei minha postura que vinha mais relaxada da Cingapura e Laos.

Neste mesmo dia, saio do Palácio Real em Phnom Penh e me deparo com uma enchente, onde tive que andar bastante com água podre até a coxa até poder procurar um tuk tuk. Por conta do feriado e da forte chuva, isto também tornou-se outra missão.

A viagem até Siem Reap de ônibus, a qual haviam me dito que duraria 5 horas, foram 8 horas. Eu já devia ter aprendido que aqui no Sudeste Asiático, quando dizem 5 é 7, quando dizem meio dia é 1 ou 2 da tarde. E também teve muita chuva pra piorar a situação.

Com chuva e lembrando do assalto de Phnom Penh, nem sai da pousada naquela noite em Siem Reap.

No dia seguinte, resolvi fazer as pazes com o Camboja e buscar tudo o que amo – ioga, comida, arte e povo. Achei um lugar pra fazer ioga que “de quebra” tinha uma introdução a budismo de graça, um bate papo com um monge. Perfeito, eu exploraria a cidade e à tarde teria ioga e aula de budismo.

Cheguei 5 minutos adiantada e avisei que estava ali para a aula de budismo. Sentei, peguei um livro e comecei a folhear. Cinco, dez, quinze minutos e nada. Olhei lá fora, a chuva continuava. Perguntei ao garçom (o local também é um café) se o monge estava vindo e ele disse que sim. Outros cinco, dez minutos e nada. Perguntei pelo monge novamente. Poucos minutos depois o garçom disse que o monge queria falar comigo no telefone. Com uma risada de quem está com vergonha, ele disse que por conta da chuva não poderia chegar, mas se eu quisesse, no dia seguinte de manhã ele iria. Aceitei.

No dia seguinte, depois de uma boa aula de ioga, comecei meu dia com animação de quem quer desbravar um novo destino. Desci e vi o monge sentado na mesa e me apresentei. O monge tinha uma pasta preta na cadeira e um celular na mesa no qual ele mexia. Pedi um suco de frutas fresco e disse que estava pronta pra minha aula.

Ele começou uma breve introdução sobre os pilares do budismo e sobre alguns valores e princípios. O celular continuava ali na mesa, fechado por uma capa.

Falou sobre um pilar do budismo – que a vida é sofrimento, com dores, envelhecimento, doenças e morte.

Perguntei como devemos sair ou superar este sofrimentos e ele disse que através dos valores básicos do budismo: levar uma vida moralmente correta, ser consciente e ciente dos pensamentos e ações e estudando e meditando para desenvolver sabedoria e compreensão.

Ele prosseguiu falando dos diferentes tipos de budismo e ponto comum de todos eles – a essência do ensinamento, o Dhamma, ou verdade.

Silêncio. Ele abre a capa do celular e começa a deslizar os dedos pelo iPhone e ver as atualizações do seu Facebook.

Meio surpresa, mas não exatamente surpreendida, perguntei se ele usava Facebook e ele respondeu “porque não?”. Falei que ele não precisava responder com outra pergunta e responder com “sim” ou “não”. Ele disse que sim, que precisava manter contato com seus alunos. Ele ensina budismo e inglês.

Aproveitei a deixa do Facebook e celular para perguntar sobre desapego. Ele pareceu não saber o que significava. Tentei explicar – desapego de pensamentos, sentimentos e coisas materiais. Ele obviamente só registrou coisas materiais e disse que só usava o roupão abóbora e sandálias, era desapegado.

Confrontei dizendo que durante minhas viagens tinha visto muitos monges com celulares e câmeras e se isso não era um pouco contraditório com o princípio do desapego. Ele justificou que um celular é necessário para se comunicar com alunos, templos, escolas, etc. Eu confrontei um pouco mais e disse que para isso um celular simples bastaria, não precisava de um iPhone e questionei a necessidade de uma câmera. Ele disse que ele, como outros monges querem ter um celular sofisticado e uma câmera. Toquei no assunto do desejo, que deve ser controlado, segundo o Buda. Ele retrucou que era apenas um pequeno gesto ou atitude fora da conduta, nada grave e que portanto não tem problema.

Silêncio novamente. Seus dedos continuavam a procurar novidades no Facebook. Deixei o silêncio acontecer por uns instantes, olhando pra ele, pra ver até onde ele iria, quanto tempo ele ficaria no celular, ignorando minha presença.

Quebro o silêncio dizendo “continue, estou te ouvindo”. Ele respondeu “o que você quer saber?”. Eu disse “quero aprender sobre budismo”. Ele diz “se você tiver tempo, você pode ir a uma das minhas aulas na escola.” Com um tom mais duro respondo “eu tenho tempo agora, estou aqui pra isso.” Com um sorriso envergonhado ele volta pra tela do celular.

Respiro e pergunto – como é seu típico dia? Ele conta que acorda as 4:30 para cantar e meditar, que estuda e dá aulas. Que dorme por volta das 11 ou meia noite. Perguntei se ele não ficava cansado dormindo tão pouco. Ele disse que não. Falei que era impressionante uma pessoa dormir 4 horas e não ficar cansado, se ele realmente não ficava cansado e se dormia de dia. Ele respondeu “porque não?” Já um pouco impaciente disse pra ele não responder com outra pergunta, que ele podia responder com “sim” ou “não”. Ele respondeu, “sim, as vezes durmo de dia”. E voltou para o celular.

A este ponto eu já estava impaciente, mas tentei continuar. Perguntei o que ele comia e ele respondeu arroz e peixe ou frango. Questionei sobre hábitos vegetarianos, pois conhecia budistas que não comem animais para minimizar o sofrimento no mundo. Ele respondeu que comia, porque não? Aquele “porque não” só continuava a me irritar. Respirei de novo e disse que era apenas uma pergunta.

Silencio novamente e dedos no iPhone. Desta vez deixei o silencio perdurar por mais tempo, olhando pra ele mexendo no celular. A impaciência só crescia. Ele perguntou se eu tinha mais perguntas e se podia ir. Eu respondi que ele podia ir quando desejasse. Mais uns minutos no celular. Meio envergonhado, evitando olhar nos olhos, ele disse que então terminava a aula e que tinha tomado um suco, o qual eu deveria pagar (um suco que ele tomou antes mesmo da minha chegada). Irritada, respondi que não entendia porque eu deveria pagar aquele suco. Ele riu, aquela risada com vergonha e pagou o suco. Ligou para o motoboy e esperou sua chegada e voltou para o celular.

Quando o motoboy chegou ele disse que me veria outro dia, se eu voltasse. Eu poderia ter ficado calado, ter dito que sim, mas não resisti e disse que eu estaria ali como estava naquele dia e no dia anterior, ele era quem não estava, não tinha aparecido, então que eu veria ele, se ele ali aparecesse. Outra risada sem graça. Ele perguntou se eu queria o seu contato para o Facebook e respondi que não precisava. Com o sorriso envergonhado ele disse tchau e saindo andando.

Irritada, impaciente, frustrada, não consegui engolir aquilo tudo. Primeiro ele não tinha aparecido para o compromisso e quando apareceu, não ensinou muito e ficou olhando para o celular. Na minha mente passeava um pensamento de falta de esperança na humanidade. Todos padecem desta doença, de ignorar a pessoa na frente, olhando para o celular. Falta de comprometimento e de respeito eu esperaria de qualquer pessoa, mas não de um monge budista.

Decepcionada, voltei para a pousada e vomitei toda a minha raiva e impaciência para Gu, descrente ainda do que tinha acontecido.

Algumas pessoas com quem compartilhei a anedota levantaram a questão dele ser um charlatão, mas não ele é mesmo um monge que faz este bate papo de budismo com frequência neste café em Siem Reap. Não sei porque ele não apareceu no primeiro dia, mas sobre sua risada envergonhada e sua fuga no celular, tenho algumas teorias.

Nos dias seguintes, conversando, observando e interagindo com os Cambojanos, pude conhecer melhor a sua forma de ser. Sendo um povo altamente oprimido, que sofreu ditaduras, guerra civil e um dos maiores genocídios da história, não é pra menos. Esta antropologia deixou os Cambojanos nada assertivos, com um traço cultural forte de hierarquia social, onde não lidam bem com autoridade, confrontamento e pressão. Tudo isso sempre teve uma conotação ruim e memórias trágicas.

Todo dia venho pensando no que aconteceu no meu bate papo com o monge, na sua postura, fala e expressão e acredito que talvez teve um pouco de confusão cultural no meio. Ele já chegou ao nosso encontro envergonhado por não ter aparecido no dia anterior. Confesso que eu posso ser dura e falar de forma intimidadora. Confesso que o confrontei e talvez o tenha tirado de sua zona de conforto. Sendo mulher, estrangeira, falando de forma mais áspera, olhando no olho de um monge, isto pode ter várias interpretações.

De toda esta história aprendi mais sobre mim mesma e sobre a vida. Percebi que preciso continuar o meu exercício de julgar menos e não levar as situações tanto ao pé da letra quando numa cultura estrangeira. Lembrei que tudo tem um contexto cultural mais profundo, intenso e sutil do que imagino, mesmo tendo viajado bastante. Que preciso ser mais branda em certas culturas, pois horário e compromisso são altamente culturalmente sensíveis. Minha mente, meu comportamento e minha visão são ocidentalizados, moldadas pelos lugares onde vivi e trabalhei. Nem todo mundo compartilha destes princípios. Aprendi que tenho que continuar o exercício de perdoar e “let go” – deixar pra lá.

E como sempre, meu pai, mesmo de longe continua me ensinando, e assim foi com sua mensagem de resposta a minha anedota:

“Oi filhota, a gente vai vivendo, cultivando nossas ilusões e nossas utopias, nossos sonhos e sempre confiando no mundo e nas pessoas com quem a gente convive e se encontra pelas esquinas da vida. E é importante este espírito. Não vamos perder isso. Quem é assim cultiva e colhe melhores frutos na vida, ainda que circunstancias frustrantes e desapontadoras como essas existam. Mas não vamos deixar que estes destruam o nosso lado positivo, de boa fé na humanidade e nos homens e mulheres de boas virtudes. Manter isso nos faz preservar o espírito da criança que temos dentro de nós. E na medida que a vida nos ensina, vamos sendo seletivos. Olhe sob esta perspectiva. Será melhor pra você.”

Amém, pai.

Dias depois, cá estou eu, sofrendo em me despedir do Camboja, um país que lentamente me seduziu. Seu povo, sua história, seu estilo de vida, tocaram o meu coração profundamente. Eu dei mais uma chance e esta chance me fez cair de amores por este país. Portanto quando aquele lugar não te receber bem ou tiver alguma memória negativa, siga adiante, mas cuidado, você pode se apaixonar.

6 thoughts on “um monge em Siem Reap

  1. Teté, com o seu Blog consigo entender que as criações não são parte de um cálculo exato, e mudanças de rumo são mais comuns do que imaginei.Lendo Carta para Índia pensei: nunca provei tanta intimidade com um texto que não escrevi. Lendo este post pensei: ainda tenho muito que aprender com esta minha filha. Sou sua fã de carteirinha. Você aguça meus sentidos e me ajuda a evoluir.

  2. Pingback: Siem Reap, Camboja – história, cultura, arte e muita emoção | Escapismo Genuíno

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