Ásia

Sapa, um vilarejo nas montanhas do Vietnã

Eram nove horas da noite. Tínhamos chegado de Halong Bay naquele mesmo dia e já partiríamos para outro lugar. Do mar para a serra, do azul para o verde. Cansados, Gu me diz que viajar daquele jeito era mais trabalhoso do que seu próprio trabalho. O taxi até a estação de trem eram poucos dólares e atravessamos a pé os trilhos até ver o número correto. Entramos no trem e ouvimos os berros estridentes dos ambulantes pelos corredores estreitos e o cheiro do café sendo servido em pequenos copos plásticos.

Os quartos eram de dois beliches e já que a minha tolerância estava maior, pulei pra cama de cima. Pelo menos tinha ar condicionado, travesseiro e cobertor.

A viagem foi de 9 horas, as quais as primeiras foram ao som do joguinho insuportável do celular da garota da cama de baixo. Eram mãe e filha, locais, viajando com seus sacos plásticos, bolsas e sandálias de flores cafonas.

Acordei diversas vezes e com o amanhecer vi o nevoeiro espesso rondando as colinas verdes ainda adormecidas.

Seis e pouca da manhã o trem para em Lao Cai, estação de trem localizada há apenas um quilometro da fronteira do Vietnã com a China.

Há quem diga que tem algo mágico em sair da caótica Hanói, dormir num trem e acordar na calmaria das montanhas. Sem dúvida tem um grande contraste, mas a viagem não é bem um sonho.

Semi acordados, ajeitando meu cabelo, esfregando o rosto, procurei pelo meu nome em um papel de ofício na saída, e assim encontrar a van do albergue que nos levaria até Sapa propriamente dito, ali era apenas mais uma estação de trem.

A van com mais de dez pessoas subiu estradas sinuosas, serpenteando montanha acima. O visual é lindo, mas pra quem tem facilidade para enjôo, pode ser um trajeto longo.

Mas o Vietnã tem isso – uma diversidade de paisagens e terrenos, portanto foi reconfortante sair da barulhenta Hanói, cheia de motos e buzinas para a espaçosa, verde e despreocupada Sapa.

O vilarejo de Sapa é daqueles cheio de turistas e mochileiros, mas a vida de interior com suas lojas, mercados, restaurantes e cafés, andando a pé, de bicicleta ou de scooter é como ela te ganha.

Mas Sapa não é um vilarejo qualquer, pois quem te adula pra você comprar alguma buginganga são mulheres Hmong, uma minoria étnica, com seus trajes de cânhamo e lenços coloridos e  o pano de fundo são nublados montes verdes e o ar fresco das montanhas.

A etnia Hmong habita o norte do Vietnã há séculos, com origem do sul da China. Eles são a maioria, mas também encontram-se ali os Dão e os Kinh, entre outros.

No final do século dezenove os franceses passaram por ali, fazendo da região uma colônia. E nos anos 30 já era um vilarejo atraindo pessoas fugindo das cidades. Muitas das construções já tiveram uma dose de destruição apesar da calmaria se encontra por lá.

Apesar de infestada por turistas, Sapa ainda tem seu charme. É pequena, tem o feeling de cidade do interior onde é fácil andar e sempre tem um cenário bonito pra oferecer.

É verdade que as mulheres e crianças Hmong são insistentes em vender alguma coisa, mas o segredo é sorrir e continuar.

Elas vão repetir inúmeras vezes “buy from me” (compre de mim), “maybe later?” (talvez mais tarde?), “promise?” (promete?) e até fazem o famoso “pinky swear”, prometer cruzando os dedos mindinhos que você vai comprar algo delas.

De novo, sorria e continua e se quiser comprar, negocie muito, é claro.

 

O que tem pra fazer lá?

Comer, beber, comprar, ler, descansar e… fazer trekking.

Você escolhe a duração, nível e tipo de estadia e anda quilômetros adentro pelos vilarejos e campos de arroz, com paisagens lindíssimas.

Você pode ficar hospedado em Sapa e fazer diferentes trekkings com duração de apenas um dia ou pode partir para vilarejos mais afastados e dormir em “homestay” – casas de locais com serviço de pousada.

De Sapa você também pode alugar uma scooter e explorar os vilarejos nos arredores.

A paisagem com os campos de arroz, verdadeiras cascatas de grama em diferentes tons de verde serpenteiam as montanhas.

Crianças correm por todos os lados, búfalos passeiam, mulheres carregam alimentos e porcos esperam o dia da morte.

O silencio predomina e nos vilarejos você pode ver a vida pacata e os hábitos locais, como a tecelagem de peças de roupa de cânhamo. Plantas de maconha crescem por todos os lados. Esporadicamente aparece uma loja com artesanatos e algo para beber.

É uma paisagem inesquecível.

 

Há quem se irrite com as mulheres Hmong que sempre tentam começar uma conversa pra depois te vender alguma coisa. Elas sempre perguntam “qual é seu nome”, “você é de onde?” “é casada, tem filhos?” “quantos irmãos você tem?” Parece uma conversa no primeiro dia do primário.

Mas eu estava interessada nelas tanto quanto elas em mim. Durante meu trekking conversei com várias delas, curiosa sobre sua rotina, vida, filhos, atividades e felicidade.

Em alguns momentos me perguntei porque tínhamos tantas guias. Atravessando os morros enlamaçados e escorregadios tive a resposta para minha própria pergunta. Elas estavam ali para nos estender uma mão e ajudar aos moradores de cidades a se manter de pé, independente delas estarem de chinelo de plástico e nós de tênis de trilha importados.

E foi entre perguntas, respostas, brincadeiras e risadas que as mulheres Hmong, as minhas guias que tanto cuidaram de mim naquela longa caminhada, que trocamos fatos sobre nossas vidas e pude fotografar momentos tão bonitos.

Todos os hotéis e albergues oferecem serviços de trekking onde a guia vem te buscar, mas uma das melhores empresas pra fazer trekking é a Sapa Sisters, que você encontra o escritório no centro do vilarejo.

Eu aconselho alugar uma scooter, mesmo fazendo trekkings, a tarde e a noite exploramos a vila e um dia fomos pra outros vilarejos só de scooter, já que eu estava cansada dos trekkings.

No vilarejo também tem um mercado de frutas, verduras e artesanatos e muitos cafés pra você comer e beber, mas este será outro post.

Sapa continua sendo um lugar tranquilizante pra fugir depois de passar por Ho Chi Minh e Hanói, é uma pequena vila cheia de encantos nas montanhas do Vietnã.

Depois de fazer trekkings, seus dias giram em torno das refeições, chás, drinques. Você pode andar durante horas para ver belas artes, vistas e mudar seu corpo e mente de ritmo.

O que levar:

O clima muda bastante em Sapa, faz muito frio no inverno, muita chuva no período dos monções e claro, um sol de rachar.

Leve chapéu, protetor, um bom tênis, calça e blusa que secam rápido pra lavar depois dos trekkings e roupas confortáveis.

Quanto tempo ficar lá

Eu diria que pelo menos 3 noites. Lembre-se que é uma noite pra ir e outra pra voltar de Hanói.

E a forma de chegar lá é esta – de trem saindo de Hanói.
Quando ir

Dizem que a melhor época é de setembro a novembro e de março a maio. Eu estive lá em agosto e foi ótimo, choveu um pouco, mas não deixei de fazer nada e foi bom fugir do calor de Hanói.

Onde ficar

Eu fiquei no Sapa Hostel, um albergue que tem quartos privados com banheiro dentro e fica bem perto do centro da vila. É simples e barato.

Sapa não tem muitos hotéis de luxo, o único que vi foi o Victoria Sapa Resort & SPA.

 

 

One thought on “Sapa, um vilarejo nas montanhas do Vietnã

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *


1 × seven =

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>