devaneios

O Tao do comer

Dia desses li que um chef renomado, conhecido por criar pratos substanciosos e refeições confortantes (leia-se, nada lights) está fazendo um ritual de alimentação (ele não gosta que chame de dieta, pois é totalmente contra) que inclui jejuar (ou quase jejuar) dois dias da semana.

Claro que achei irônico um chef de cozinha fazer qualquer tipo de dieta. Chefs amam comer e assim como eu, devem ter uma dificuldade tremenda em fazer deita. A única chef de cozinha magricela que conheço é a Helena Rizzo (algum outro?)

Matthew Tomkinson, este chef britânico que se diz anti-dieta, confessa que está tão inspirado com sua nova abordagem perante a comida, que a vê como parte de sua rotina para sempre. Ele se recusa a chamar o novo hábito de dieta, uma palavra estigmatizada. Seu novo hábito alimentar chama-se 5:2, onde ele come normalmente durante cinco dias na semana (incluindo carne, pão, queijo e vinho) e quase nada nos outros dois dias. Segundo o chef, esta nova regra alimentar não só o ajuda a manter o peso, mas também tem benefícios que vão muito alem do físico – ele ganhou perspectivas diferentes no lado emocional e espiritual. Ele perdeu peso, sente-se mais saudável e diz que até mudou seu relacionamento com a comida, valorizando mais os sabores e arte da culinária.

Cá estou eu, uns quilos a mais de quando saí do Brasil há quase cinco meses atrás, comendo meu caminho mundo afora, a gulosa taurina convicta que sou, lendo esta matéria e não contive o pensamento – será que estou precisando mudar a minha filosofia e a minha perspectiva perante a comida?

Se pra mim já é difícil fazer dieta na minha rotina quando estou em casa, imagine viajando. Viver já não combina com dieta, quem dirá viagem com dieta. Uma das grandes alegrias e descobertas de uma viagem é comer a comida local. Se você se permitir estar em sintonia com a experiência gastronômica, uma refeição é uma emocionante viagem em si mesma – tão inspiradora quando visitar uma galeria de arte, tão confortante quando uma massagem, tão reveladora como conversar com o povo. Se eu já amo comer, viajando, esta paixão floresce ainda mais. Ou seja, meu grande desafio, alem de fazer mala e mudar de cidade a cada cinco dias é controlar o que como.

Viajar, pra mim, não é apenas uma oportunidade de expandir a mente, mas também as papilas gustativas. Comer é uma experiência íntima. São poucas as demais atividades no nosso dia que pensamos e planejamos tanto quanto fazer uma refeição (mais algum gulosos de plantão, ou sou só eu?).

Estou vivendo viajando e comida é uma parte integral de uma cultura. Ou seja, estou vivendo comendo. As cidades e países por onde estou passando abrigam sabores que definem a sua cultura e é o que os tornam únicos. Viajar pra mim não pode ser só ticar os lugares vistos da lista, tenho que provar a gastronomia local. A comida tem um aspecto cultural importante, ela conta histórias e estórias sobre o povo e quem a preparou. Comer ao viajar é parte da experiência e é A experiência.

 

Continuo reavaliando – será que estou atropelando as coisas (leia-se as comidas)? Será que devo valorizar a comida me privando um pouco dela? Será que preciso sentir mais saudade dela?

O tal hábito alimentar do chef Matthew é baseado na ciência do jejum intermitente, como nosso ancestrais – banqueteando-se nos dias de caça e depois jejuando ou sobrevivendo com poucas frutas e nozes no período entre uma comilança e outra.

Meu primeiro julgamento é que parece drástico e nada saudável, mas não sou nutricionista e só entendo de comer. Mas segundo Matthew, não é. A maioria das pessoas come de acordo com sua agenda profissional,  ou porque tem comida na geladeira, ou porque estão cansados, tristes, felizes, ansiosos. Segundo ele, o jejum intermitente nos traz de volta para o ritmo que realmente devemos comer.

Segundo Matthew, este tipo de jejum traz benefícios para a saúde e ajuda a emagrecer. Com toda a minha preguiça de malhar, eu poderia fazer bom uso desta dieta, mas o que mais me chamou a atenção é a mudança de pensamento e visão perante a comida.

 

Nesta minha viagem longa pelo mundo, onde só tenho uma mala de 20 quilos, existe um desprendimento de coisas materiais e isso já mudou minha visão de muitas coisas. Menos realmente é mais, por mais clichê que seja a frase e dou importância a tantas outras coisas que não são bolsas, sapatos e roupas.

Seria esta a minha provocação pra mudar também a minha visão pela comida e a minha falta de disciplina com ela? Estaria eu desviando a minha prazerosa relação com a comida por conta de excessos?

 

Definitivamente preciso sentir-me mais leve, mais desintoxicada e saudável. Meu paladar também precisa de um ajuste – deixar de comer coisas dignas de culpa e me limpar por dentro. Comer e apreciar a comida, enxergá-la como alimento e não como indulgência, devem me reconectar ao real propósito da comida. Quem sabe comerei com mais calma, com menos culpa, com mais disciplina.

 

O segredo é continuar explorando e descobrindo, mas achar o equilíbrio pra seguir valorizando cada mordida. Será que vou conseguir?

9 thoughts on “O Tao do comer

  1. Concordo com você teté: a viagem ideal inclui o prazer de desvendar a culinária local. comida também reflete a cultura de um povo! quem viaja para comer mcdonald’s não está conhecendo direito o país. quanto a idéia de jejuar, eu não sei se conseguiria… como você, sou gulosa e como não só para me alimentar, mas por prazer. Acho melhor a gente ir atrás de academia mesmo. Beijo e boas viagens

  2. Vendo as imagens deliciosas que você compartilha conosco ao longo dessa sua bela viagem, e lendo sua reflexão interessante sobre nossa relação com a comida, acho que o exercicio releva do simples, porém o simples nem sempre é de facil aplicação: encontrar o tal ponto de equilibrio, o caminho do meio, aquele que permite ao mesmo tempo suprir as necessidades do organismo, e saciar a gula de viajante. A forma como podemos entrar em contato com a cultura local através da gastronomia, como você destacou, é em si um bom caminho do meio. Bon appétit e boas experiências por ai!

  3. Olá Tete, conheci v. hoje ao ler sua entrevista em “conhecer o mundo em 365 dias”. AprecieI tudo o que v. falou. AOS 62 ANOS, NÃO SEI SE TENHO “PIQUE” PARA VIAJAR TANTO EM LUGARES TÃO DIFERENTES, JÁ COMCEI A CONHECER ALGUNS, MAS NÃO COM ESTE SEU OLHAR. ADOREI AS DICAS, QUANTO AO PESO DA MALA, E DEMAIS ATITUDES . fIQUEI ATÉ ANIMADA. RSRS. vOU SER FREQUENTADORA ASSIDUA DO SEU BLOG. ADOREI CONHECER. ABS.

  4. Que desafio!! Como você sou super gulosa e ao mesmo tempo procuro cuidar da qualidade do que ingiro. Normalmente em viagens fico um pouco mais solta, mas Sem deixar de ser criteriosa nas escolhas. POr ter uma preferencia natural Por Alimentos integrais e culinária vegetariana, acabo me sentindo em casa mesmo quando encontro algo Assim para comer…. De resto, enjôo muito rápido de comidas altamente temperadas…. O problema é que quanto mEnos “comidas simples” comemos, menos aguçado nosso paladar tente a ficar para sabores maIs sutis… Numa viagem longa como a sua e ainda passando por tantos lugares cheios de novidades, encontRar um equilíbrio é um pouco complicado….

  5. Que desafio!! Como você sou super gulosa e ao mesmo tempo procuro cuidar da qualidade do que ingiro. Normalmente em viagens fico um pouco mais solta, mas Sem deixar de ser criteriosa nas escolhas. POr ter uma preferencia natural Por Alimentos integrais e culinária vegetariana, acabo me sentindo em casa mesmo quando encontro algo Assim para comer…. De resto, enjôo muito rápido de comidas altamente temperadas…. O problema é que quanto mEnos “comidas simples” comemos, menos aguçado nosso paladar tente a ficar para sabores maIs sutis… Numa viagem longa como a sua e ainda passando por tantos lugares cheios de novidades, encontRar um equilíbrio é um pouco complicado….

  6. …. Acho que se estivesse no seu lugar não faria disso um “exU” (trocadilho para isso), pois grande parte dA experiência da viagem estÁ justamente na gastronomia… Tentaria Equilibrar outros aspectos, como no sono, na respiração, na mastigação, nas caminhadas e atividade física…. Nos somos corpo, mente e espirito. Tenho certeza que sua mente seu espirito estão tão bem nutridos com essa experiência impar que Estão compensando o item corpo, no que diz respeito ao estresse físico devido Às constantes mudanças de rotina….

  7. … Sobre Jejuar, é uma pratica milenar em civilizações tradicionais. O que esse chef propõe é uma forma de equilíbrio extremo (como equilibrar consumo excessivo de carne com doces e álcool, combinação freqüente nas sociedades modernas). O jejum tem comprovados eFeitos surpreendentes (principalmente em termos espirituaIs, de claramente da consciência e aguçamento dos instintos e da intuição). Entretanto, deve ser feito de forma cautelosa, onde normalmente se reduz a ingestão de alimentos gradualmente e a retomada da dieta requer ainda maior cautela, nestes aspectos, a qualidade do pré e do pós são essenciais, Bem como o nível de atividade física/mental durante o periOdo dO jejum… Acho uma experiência valida Uma vez na vida, porém considero perigosa em meio a uma viagem e com tantas mudanças De clima e ambiente…

  8. Apagou!!!

    Deixa ver se eu lembro de tudo…

    Saboreie a sua viagem, cada pedacinho dela…

    Procure mastigar bem, para fazer das refeições uma oportUnidade de recarregar não só o corpo, como a mente e o espirito, meditando Sobre o seu dia, sUas bênçãos, suas experiências e sobre o delicioso sabor da comida que está em sua frente.

    Pode contar as mastigações, eu prefiro prestar atenção ao tempo e levar pelo menos trinta minutos para comer um prato, chegando até uma hora….

    Refeições meditativas em silencio potencializam o valor nutricional das refeições, aCalmam e fazem a gente comer menos…

    MaIs importante de tudo: cherish Your moments!

    É uma ExperiencIa única e rica, que deve ser saboreada minuciosamente….

    Te aguardo saudosa pro detox!!!

    Safe travels…

    Beijos

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