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o que aprendi viajando pela África

Eu não conhecia muito da África, só Marrocos e Egito. Este ano decidi conhecer um pouco mais do continente onde tudo começou. Fazer 30 anos na Mama África foi um privilégio, uma inspiração, uma grande reflexão e agradecimento. Lá, onde tudo começou, terra mística, colorida, contrastante, de natureza exuberante, transbordei de emoção.

Compartilho com vocês algumas lições viajando pela África:

Espere o inesperado pra tentar estar preparado pra quase tudo. Vôos são cancelados, o ônibus pode sair ou não e quase atropelar uma cabra. Até os hotéis 5 estrelas tem insetos. A malária pode estar em qualquer lugar. Uma boa negociação em segundos vira uma não tão boa.

Entenda que você é o estrangeiro na terra do “outro”, mas você tem a chance de explicar a sua jornada e trazer as pessoas pra mais perto do seu propósito. No “arrear das malas” como dizem os baianos, eu posso parecer uma Americana tonta viajando, mas ao bater papo, descobrem que sou mesmo é brasileira e estou acostumada com um batuque, um tempero, uma oferenda, afinal a Bahia também é a África. (Não é a toa que a agencia de Nizan Guanaes tem o nome que tem).

Mesmo sendo adulado repetidamente pra comprar alguma coisa, mantenha a compostura, a ternura, o sorriso, e diga “olá” e “não, obrigada”. Mesmo quando você queira gritar pela vigésima vez: “não quero!”

Ser brasileiro é um ótimo cartão de visita. Um sorriso e uma breve apresentação vão longe, mudam comportamentos e você consegue muito mais do que imaginava.

Um “oi” e um “obrigada” no idioma local podem fazer a diferença.

A vida não é um filme. Estar em um vilarejo Masai é muito mais bonito e agradável na tela da TV do que na realidade. Moscas, insetos, sujeira, tentativas de arrancar algum dinheiro – nada disso está no filme. Mas é melhor viver do que ficar no se…

O mundo mudou, hoje todos têm celular, até os Masai, em um vilarejo no meio do nada no Quênia. Mark Zuckerberg pode ter inventado o Facebook, mas ele não inventou a necessidade de estar conectado e de se comunicar. Isto é intrínseco do ser humano.

Perguntar a uma criança “o que você quer ser quando crescer” é coisa de país desenvolvido ou desenvolvimento acelerado. Em muitos países da África são tantas as adversidades que pensar no futuro é praticamente impensável. Pensa-se no dia de hoje, de amanhã. Cada dia é uma sobrevivência. Pensar no futuro, em uma profissão é tão longínquo. Primeiro vem a sobrevivência da fome, da malária, da falta de água potável. Depois… depois vem o depois.

A pobreza na África ficou instalada com o modelo sócio-econômico imposto pelos países colonizadores. Os recursos foram arrancados daqui. O homem branco chegou lá com uma arma na mão e uma bíblia na outra. Os recursos naturais africanos são levados para os países desenvolvidos que o transformam em produtos e revendem. A Alemanha é um dos maiores exportadores de café do mundo, e como sabemos, o país não tem uma planta de café sequer em seu solo. Ou seja, ainda tem muita pobreza pela frente.

Ser chamada de “mzungo” ou branco é só mais um indício que a separação racial ainda vai demorar gerações pra diminuir as marcas que deixou.

Ao viajar pela África as preocupações começam a mudar. A câmera quebrou, ok. Marido salta de pára-quedas do prédio, ok. Reusar roupa suja, ok. Dormir em albergue sujo, ok. Dormir com baratas em uma oca, ok. Comer rim de bode cru, ok. Ficar um dia sem tomar banho, ok. Dor de barriga, ok. Fazer do mato um banheiro, ok. O negócio é rezar pra não pegar malária ou alguma doença mais grave.

Ficar em hotéis e em albergues é uma boa combinação. O hotel me deu conforto, o albergue me deu interação com outros viajantes, além de me dar a habilidade de valorizar ainda mais uma noite bem dormida.

No nosso dia a dia, normalmente não vemos o nascer do sol. Ele é mágico, tem outra cor, outro calor, outra energia. Acordar cedo e ver o pôr do sol, além de lindo, é gratificante.

Menos é realmente mais. Não precisamos de muito – roupa, sapato, cosméticos e outras parafernálias, mas uma boa farmácia portátil é imprescindível (quando for a África, inclua anti alérgicos para mosquitos, pomada e comprimido).

O repelente é seu melhor amigo. Use sempre, carregue na mochila, não menospreze. Veja mais informações de como se prevenir da malaria aqui. Antes de sair da África, compre um auto teste de malária e uma caixa de remédios, os sintomas podem aparecer quando você já estiver de volta.

Sair do caminho comum pode te levar a surpresas agradáveis, e pra isso agradeço a meu marido. O que “pode” e não “pode” é subjetivo na África. Mas claro, sempre mantenha o bom senso e as regras locais em mente.

Se você não suporta insetos, nem por um segundo, não vá pra África. Ou tente sua sorte apenas na África do Sul.

Existem muitas concepções erradas sobre a África.
Neva, sim, na África.
A África é um continente diverso, com culturas bastante diferentes, mas em quase todos os países que fui tinha uma versão do “pirão” de milho, base da alimentação local, só muda o nome: “pap”, “uji”, “sadza”, “ugali”, “nsima”, “chima”.


Apesar de ter muitas guerras e conflitos, tem muitos lugares seguros na África, mas como no Brasil, é sempre bom estar “ligado”.
Tem muita pobreza na África, sim, mas quando você chegar na região das vinícolas da África do Sul, você nem vai lembrar disto.


Nem sempre faz um calor infernal na África, peguei dias frios em vários países. Leve, sim, pelo menos um casaco.
Nem só de gente suja é feita a África, vi dentes mais limpos e brancos na África do que no Japão e na Europa.

Ainda existe muita ignorância com respeito a AIDS. Tem gente que acha que não é um vírus, tem gente que acha que a doença sai com tratamentos espirituais e oferendas, tem gente que acha que a doença sai ao transar com uma virgem. Sim, é triste.

Tem muitas organizações tentando ajudar a África, mas “o buraco é mais embaixo”. Com tanto lixo e água parada é difícil combater a malária. Várias mosquiteiros doados viram rede de pescar – qual problema endereçar primeiro? Com tanta ajuda de ONGs, o povo se acostuma a ter o peixe, poucos são ensinados a pescar.

Como diz o ditado em inglês: “one man’s trash is another man’s treasure” – o lixo de um é o tesouro do outro. Na África tem muito escambo. Você pode trocar uma camiseta velha, um sapato, uma sandália por algum artesanato, peça de arte, bijuteria…

Quando você passar por um aperto, noite sem dormir, insetos, comida de origem duvidosa, sem banho, horas andando, dores de barriga, e achar que não dá conta, saiba que você ainda tem muita energia reservada.

Um dia é o tempo suficiente pra começar uma amizade e deixar que seu coração seja tocado pra sempre.

Faça chuva, sol, vento ou tempestade, você seguirá viagem e chegará no próximo destino. Por melhor ou pior que seja o trajeto, ele chega ao fim. Mais cedo ou mais tarde. Valorize todos.

13 thoughts on “o que aprendi viajando pela África

  1. Deve ter sido uma viagem bastante interessante. GoStaria tb de vivenciar tudo isto! As fotos são lindíssimas! PaRabÉns pelo blog!

  2. Muito lindo e inspirador o seu texto. Gostei demais! Quem sabe um dia eu terei a oportunidade – e a coragem e o peito aberto – para viajar pela áfrica também? Espero sinceramente que sim.
    Abraços!

  3. Texto lindissimo e muito inspirado como sempre. fiquei escutando a sua voz enquanto lia.. :) o continente é muito diverso não é mesmo? cheio de contrastes. e eu sempre via na mídia essa africa dos pés descalços, das estradas de barro e o que me espantou foi exatamente o contrário… não esperava encontrar cidades modernas, hotéis lindissimos, rodovias pavimentadas e bem sinalizadas. como não conheço outros lugares, não consigo comparar ainda, mas acho que o que eu estou vendo é bem diferente do resto do continente, mas interessante que raramente a gente vê esse lado, muita vontade de explorar ainda mais os lugares que você visitou depois dessa sua visita que amei acompanhar pelo instagram.

  4. Palavras realmente Inspiradoras! Me senti caminhando pelas rUas de qualquer paÍs do sudeste africano!

  5. Muito bom o post. uma leitura obrigatória para quem quer visitar a áfrica não só dos destinos mais turísticos, mas de um modo mais abrangente. gostei do seu olhar aberto e sem preconceitos. hoje depois dos 40 não me vejo mais fazendo esta parte ‘roots’ de albergues mas acho muito bacana vocês terem conseguido mesclar os dois jeitos de viajar. e viajei nas fotos lindas que você tirou no instagram. tem um livro muito interessante sobre uma norueguesa que casou-se com um masai e conta a história dela. não sei se você já leu, chama-se ‘a masai branca’,. beijos!

  6. Olá, td bem?? vou pra africa e gostaria de saber se vc usou repelente do brasil ou comprou lá, pois li que os daqui não afastam os insetos de lá e queria saber se vc foi pro kruger? obrigada!!

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