devaneios

o banho reparador

Hoje faz cinco meses que estou na estrada. Mais um dia de acordar cedo, pegar um vôo, chegar na cidade e explorá-la a pé, pesquisar, perguntar, andar, se achar, fotografar, relatar, anotar, escrever, comer, andar mais um pouco… No final do dia o que me cola os cacos é um bom banho.

Sento na cama do quarto minúsculo do albergue e penso – tudo cansa. Muito de qualquer coisa cansa. Muito barulho, muito silêncio, muita comida étnica, muita música nostálgica, muita música agitada, muita correria, muita calmaria, muita praia, muita serra.

Até as coisas que você mais ama – viajar, comer, amor, doçura, preguiça, nada fazer – em grandes porções cansam, enjoam ou até fazem mal. Tudo tem a dose certa.

Lá se vão mais de 20 países, não sei quantas mil fotos, não sei mais quantas mil milhas, safáris, templos, ônibus, trens, barcos e incontáveis vôos. Até viver um grande sonho cansa.

Mas nada como um banho reparador. Mais do que um prato farto de comida e um cochilo daqueles de babar, um banho é capaz de te reerguer, revigorar, te reconstruir. Com um bom banho consigo ir além, sair pra conhecer algo mais, sentar e trabalhar mais umas horas, lavar as horas mal dormidas ou acalmar o corpo pra me entregar ao sono.

Nesta vida sem rotina que levo, onde minha mala é a minha casa, talvez este banho seja uma vaga lembrança de um dia a dia. Saí pra ver o mundo em uma longa jornada, e de uma forma, escapar da rotina. Quem sabe este reparo embaixo do chuveiro seja uma vivência que como um tentáculo me puxa para o conhecido?

Tenho uma espécie de guia espiritual e antes de partir ela me disse que esta viagem estava no meu caminho e requereria muita energia. “E na falta dela?” perguntei. “Água” ela respondeu com convicção. “De preferência salgada, mas serve de rio ou o banho mesmo de cada dia. Deixe a escorrer e filtrar o necessário do desnecessário, o bom do ruim e deixa a água te re-energizar”.  Não é que ela estava certa?

Foto: Wynn Richards, 1932

Não tenho mágoas pra curar, barra pra segurar, nem feras pra lutar, mas sei que com muitos estímulos sensoriais e mentais, ando a flor da pele. Depois do banho, algo sempre muda. A limpeza que ultrapassa o físico é este bem que a água me dá, na sua simplicidade, conforto, que me devolve a meu prumo, re-estabelece meu rumo e me dá força pra continuar querendo mais. Há sim os questionamentos, fantasmas, impotências, divagações. Posso entrar no banho com todos eles, sem respostas, sem planos, sem resoluções nem vazões, mas saio curiosamente abrandada. Giro a torneira, sobrevivo, e nos pingos que escoam saem algumas das minhas fraquezas. Olhos, poros, pele e mente expulsam tantas coisas e a água leva ralo abaixo o que já não preciso mais, o que já não me faz bem.

Este banho reparador de todo dia drena meu cansaço, a limpeza me conforta, e sensação de ser uma nova pessoa me traz uma certeza que apesar de tudo continuar sendo como é lá fora, aqui dentro tudo se renovou.

Eu, escapista, tinha verdadeira aversão à rotina, e descobri que isso é uma bobagem. Pois é no dia a dia, enfrentando os medos e as mesmices (e claro, quebrando-o de vez em quando) que a vida entra nos eixos e as feridas fecham. Dia pós dia, banho trás banho.

Mais do que um simples rito de higiene, o banho é uma terapia. Sair do banho é sair novo, refeito, de cara nova, com nova disposição. Um remédio caseiro infalível. Seja depois de uma má notícia, de uma briga, de um dia intenso, de muito trabalho, muito prazer, depois de fazer amor, depois de um bom exercício, depois da longa caminhada, de uma encruzilhada; tomar banho depois de qualquer situação intensa, é a certeza de que a vida continuará e de uma forma ou de outra, mais ou cedo ou mais tarde, entrará para os eixos. O banho reparador é sua postura ereta dizendo sim à vida, sim, continuarei a viver, não importa como.

Pois é com água, sabão e xampu (sais, óleos, espumas e afins) que lavamos marcas, emoções e memórias. O banho reparador tem o poder de fazer esquecer, amenizar, entregar-se e querer recomeçar. Os estragos e desgastes neutralizam-se e como um hiato entre uma fase e outra, pausamos os momentos vividos e fazemos do asseio um despertar da consciência, do corpo e da mente.

O banho reparador é abrigo, é fuga, é conforto.

Ele me faz voltar a funcionar, pois com todas as novidades, descobertas, dúvidas e inconstâncias, é o costume, o natural, o conhecido que faz a vida se recompor.

Sentada, com as madeixas já um pouco mais compridas ainda pingando, penso – a vida tem muita persistência, ela insiste em seguir adiante, mesmo com as perdas, os danos, as incoerências e os medos. Mas depois do banho, estou mais disposta, mais corajosa.

Com o tal banho reparador, nos lavamos, o corpo troca de pele, a alma de roupa e reiniciamos.

8 thoughts on “o banho reparador

  1. Adorei o texto, Teté ! E devo dizer que caiu em uma ótima hora, porque você colocou em ótimas palavras uma verdade: a gente se cansa.
    E taí o que muita gente não entende – nem a gente – das coisas: como é que uma coisa boa, como viajar e conhecer tanta coisa diferente, cansa.?
    Eu tô me sentindo assim também – e junto com o parabéns pelo belo texto, vem um obrigada por transformar em palavras algo que eu não saberia expressar melhor.
    Sou, por isso, uma fã silenciosa do seu blog – toda vez que passo aqui vou embora com um texto melhor. :)
    Muitos banhos, e água, e renovação, para você continuar escrevendo essas coisas bonitas para a gente – sem cansar!
    Beijos, Cla

  2. AMIGA QUERIDA, SEU TEXTO É MARAVILHOSO! ACHO QUE DEVE SER POR ESSE MOTIVO QUE SEMPRE QUEREMOS REGRESSAR QUANDO ESTAMOS LONGE. PRA PODER LAVAR A ALMA EM CASA E REVIGORAR COMPLETAMENTE. ACHO QUE É ISSO QUE EU ESTOU BUSCANDO TB. IR PRA DEPOIS FICAR COM MUUUUUITA VONTADE DE VOLTAR.

  3. Amo os seus devaneios. e esse foi um dos mais especiais. tudo tem a dose certa. força e muitos banhos e devaneios… e vida longa ao escpaismo e à você, que tem me proporcionado tantas leituras lindas

  4. Té., lindo texto!! Eu passei agora “apenas” 3 meses morando fora e rodando bastante e entendo bem quando você diz que Muito de qualquer coisa cansa. É bom demais viajar, mas os InterValos para banhos em casa fazem falta :)
    Suas fotos estão lindas, adoro acompanhar!
    Um beijo com saudades,
    Nana

  5. Ameiii o texto!!! Abordei esse tema no blog também, mas com uma linguagem beeeem menos poética, risos!!!

    http://www.beijonopadeiro.com/2013/09/banho-mais-que-limpeza-um-ritual.html

    Falando em banho, vou para o meu super banho do dia: 1 hora e meia na piscina, nadando.. Terapia total onde medito e por uma hora e meia só o que importa é a contagem de voltas para não me perder no treino… felicidade de alma!! de quebra, ainda deixo umas boas calorias na piscina, risos!!! =)

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