devaneios

minha saudade mudou

Comecei a escrever uma carta para meus avós, era pra ser sobre a Tailândia, mas acabou virando um ensaio sobre a vida de uma viajante, uma confissão sobre novos sentimentos, uma abordagem nova para antigas dores. Escrevi sobre a saudade. Sobre como minha relação com este sentimento vem mudando. No final, me dei conta que ao despejar meu coração com meus devaneios, nascia outro post para o escapismo. Então passei as palavras escritas a mão para a tela do computador e resolvi dividir com vocês, afinal escrever é isso – cauterizar as feridas ao abri-las.

Queridos Vó e Vô,

Dia desses, ao responder sobre quanto tempo eu estava viajando, a indagadora arregalou os olhos e perguntou do que eu sentia falta. “Só das pessoas.” Eu respondi sem hesitar. “Mais nada? Comida? Sua cama? Seu guarda-roupa?” Ela voltou a indagar, meio assombrada, com a testa franzida. Não, eu não sinto falta das roupas, da casa (nem sei que casa seria). Não sinto falta de ir no salão, de abrir o guarda roupa e ter dúvida de que calça vestir, nem da rotina, nem da caminhada que tanto amo fazer no calçadão.

A verdade é que não sinto falta do Brasil e da minha vida nele porque sei que voltarei.

A vida tem me preenchido tanto (e agradeço por isso todos os dias), que realmente só sinto falta das pessoas, e vocês fazem parte deste sentimento.

Ao pensar sobre a saudade que sinto das pessoas, vejo que o desapego que venho exercitando e a sede de conhecimento transformaram este sentimento dentro de mim. Hoje a minha relação com a saudade mudou.

Tendo sido expatriada, onde não se sabe ao certo a data da próxima visita, convivendo com o fato de que o CEP é outro por tempo indeterminado, já vivi uma saudade mais dolorosa. Hoje a saudade que sinto é diferente.

Minha mãe, que já foi perambulante, diz que eu tenho alma de cigana. E quando a vida te dá esta condição (ou inquietação), você aprende a fazer as pazes com a saudade e percebe que é melhor criar um laço de amizade com ela.

Quando decidi viver longe da família aos 15 anos de idade, Vó e Vô, eu ainda não percebia que esta é quase uma imposição da vida longe do nosso lar, do nosso ninho. Em toda despedida minha mãe dizia “quando a chuva molhar o seu ninho, você sempre terá o seu ninho aqui”. Ali, a saudade ainda doía, e ainda continuou a doer durante algum tempo. Mas nada como o tempo e a intimidade… Com estes ingredientes a relação mudou. Hoje a minha saudade é madura, sadia a até racional. Talvez seja pela certeza que voltarei. Existe a data da partida e da chegada, pois as prioridades mudaram. Mas talvez seja apenas um tratado de paz que a minha alma decidiu assinar com ela. Alma viva, porém já um pouco cansada dos afastamentos, que resolveu viver esta amizade, de uma vez por todas, como uma defesa para lutar contra o conflito do corpo e a mente querendo voar mundo afora e o coração querendo ficar perto de quem se ama.

Há sempre quem pergunte “mas não dá pra satisfazer essa curiosidade e viver essa aventura aqui mesmo, na Bahia, no Brasil? Ou algum canto mais pertinho de casa?” Não. Respondo com total convicção que não. Eu precisei ir longe, andar por caminhos menos percorridos, desconhecidos e distantes. Sabe Vó e Vô, pra quem tem sede de viver e só consegue viver de olhos, mente, espírito e peito abertos, desobedecer o destino seria uma ofensa, um atalho preguiçoso, uma frustração, assim como se fechar, se podar, se apegar à relações, coisas materiais, rotinas, vidas, zonas de conforto e lembranças daquilo que passou e não volta mais.

Por isso, como meu professor Manoel (de psicologia) me ensinou, decidi vestir meus sentimentos com roupa nova. Ele sempre me diz que devemos vestir as emoções com a nossa melhor versão. Minha saudade hoje veste estampas coloridas e não dispensa bons acessórios – brinco, colar, anel e chapéu. Sapatos confortáveis sempre, pois a caminhada é longa e a viagem nunca realmente acaba.

Foi ao vesti-la com carinho, buscando os complementos corretos, que em troca ela já não me dói. Esta forma de ver, amanhar e cuidar deste sentimento, companheiro de quem cai no mundo, foi a mais afável e respeitosa que encontrei. Não se trata de frieza nem racionalidade. É apenas um ato de paz, de sossego, compreensão que vem com o tempo.

Sem dúvida, Vó e Vô, as pessoas, os momentos, os lugares e as experiências que importam estão aqui comigo, aonde eu estiver. O lugar deles na minha memória e no meu coração nunca será desapropriado. A vida naturalmente expulsa alguns deles, mas os preciosos sempre ficam. Alguns estão conectados à mim de maneira tão pujante, que as sinto vivas quando transitam meu pensamento. Alguns eu amenizo a saudade quando sonho com elas, pois realmente sinto que meu espírito vai de encontro com estas pessoas quando o corpo adormece.

Isso alimenta minha alma e acalma a saudade, como uma massagem, onde o óleo medicinal são as boas lembranças e a certeza de uma vida bem vivida.

Vó e Vô, é como se eu tivesse nascido uma tela branca e, durante as minhas andanças, como o caminhar, fosse encontrando tintas de diversas matizes e assim vou me transformando em uma aquarela que só será terminada ao passar para outro plano. Mas, Vó e Vô, não se preocupem. Nada disto dói nem me dá tristeza, nem vontade de ter pintado algo com traços diferentes.

A saudade que hoje me invade, Vó e Vô, é mansa. Ela afaga meu peito e me mostra o quanto amor dou e recebo nesta jornada.

Neste tratado de paz que assinamos, uma das clausulas é reavaliar as relações das quais inevitavelmente me separei fisicamente. Como sabemos, ao sair de um contexto, vemos mais claramente tudo que nos envolvia. Por isso o tempo é ideal para rever os laços criados, valorizar o tempo com quem amo, reavaliar amizades, tempo investido, desatar nós, curar feridas, perceber a importância das pessoas na minha vida e o meu lugar na vida delas, e talvez, por uns instantes, perguntar menos porquês. Irei, Vó e Vô, com o que parecer mais confortável, lógico e natural.

Este exercício não é fácil no início, mas com o tempo (grande mestre), ele acontece naturalmente e precisa ser feito sempre, mesmo que com ele venham lágrimas, desapontamentos e surpresas, porque com certeza também vêm sorrisos, sonhos, planos e clareza.

Vó e Vô, hoje sinto esta saudade boa de tudo e todos porque ela não me remete à ausência física. Se ela existe, é porque tem uma algo especial incinerando esta chama.

Descobri, ou teimosa que sou, achei uma solução, onde a saudade pode e deve ser um sentimento doce, pois é puro, mas precisa de esmero. É só pensar que ele é o termômetro que mede o que se tem por alguém e que o outro tem de mim.

Achei melhor assim.

Beijo carinhoso e saudoso,

Teté

imagens: Pinterest

16 thoughts on “minha saudade mudou

  1. A sua capacidade de descrever sentimentos através das palavras é impressionante! Estou acompanhando sua linda viagem desde o início e impressão que tenho é que a grande viagem está acontecendo de verdade dentro de você. Espero ansiosa pelos seus posts, pois eles sempre me tocam profundamente. Beijos!

  2. Que lindo o seu texto. De certa forma, tenho também essa inquietação. Mas ainda estou tentando me encontrar. Gostei de saber das suas dúvidas do início, acho que elas são bem atuais para mim, falta ainda saber algumas coisas da minha individualidade para me sentir completa nessa jornada, mas seguimos tentando…Beijos!

  3. engraçado como as vezes a gente acaba se deparando sempre com o mesmo tema, como se fosse uma coisa do universo de nos mandar sempre a mesma mensagem (ou que nesse momento isso é tudo que meus olhos andam vendo por aí, vai saber). talvez por identificar em mim essa alma cigana, mas ainda presa aqui, na terra e no ninho.

    adoro o blog e suas fotos incríveis no instagram, sempre fazendo o bicho da viagem aqui dentro me morder e perguntar qd eu vou. obrigada por isso. :)

  4. Filha, tive a hoinra de receber em manuscrito a cópia desta peça maravilhosa que voc~e escreveu. Quanto orgulho! quanto prazer de te ver crescer madura a cada dia. como já te disse antes, você veio de uma estrela evoluida. Já chegou neste mundo com sabedoria! Tenho saudades também mas sempre me consolo com o pensamento que se vocês estão longe foi por opção de ser feliz e realizar seus sonhos. Querer ter vocês junto a mim seria egoismo. Quero e sempre quis ve-las felizes e realizadas e para isso o meu amor e o meu apoio é incondicional. Resumo sempre dizendo: já carreguei vocês na barriga agora e para sempre carregarei no coração e para ele não tem distancia só tem o amor que nos une! fica com Deus e com meu carinho. Mommys

  5. No velório de meu pai, ao chegar em meio àquela comoção, Nossa avó portava o sorriso que de imediato identifiquei como o que ela esperava de nós à hora da sua própria despedida quando deu a definição consoladoramente definitiva e que intertextualiza diretamente com seu registro:

    “Saudade é presença!”

    e é isso. que a chama não se apague, posto que seu combustível é o amor.

    paz.

  6. querida, estou emocionada com esse texto também! já chorei com o outro da volta e agora estou parecendo uma madalena aqui chorando sozinha… o mais incrível nisso tudo é saber quanta gente se identifica com seus textos. estou, como sempre, orgulhosa de você e muito feliz de poder ser sua amiga e compartilhar um pouco desse seu espírito lindo!!! saudades sempre <3

  7. Ai como amo esses seus devaneios… Que post delicioso, que paravras bem escolhidas, que sentimento mais puro e ao mesmo tempo forte!!

    A vida me ensinou a fazer as pazes com a saudade e andar de mãos dadas com ela… Não nasci cigana como você, mas de repente entrei nessa roda gigante e a certeza de que a saudade das pessoas é a única que realmente importa e que elas estão conosco, onde quer que estejamos, liberta a alma!!

    Que Deus continue abençando os caminhos por onde percorre!!

    Beijo com gosto de saudade da amiga que já não lhe vê há anos, mas que lhe tem sempre por perto em pensamento! Te amo!

  8. tete querida!
    Vc sempre me emocionando e me surpreendendo com a sua delicadeza de alma!
    A vida me enSinou a conviver com a saudade!
    O importante, querida, é sentirmOs a certeza do amor incondicionaL daqueles A quem amamos!
    Bjos minha linda

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *


× four = 28

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>