Ásia

meu roteiro no Nepal

O cenário montanhoso do Nepal é inesquecível. Não só por poder gabar-se de hospedar a montanha mais alta do mundo, o Everest, mas pelo simples fato de irradiar a beleza e energia do Himalaia.

Mas não só de montanhas é feito o cenário do Nepal, tem cidades antigas, templos, vilarejos, animais e natureza.

Este pequeno país cercado por terra faz fronteira com o Tibet (e por isso recebe muitos refugiados de lá) e com a Índia.

A maioria dos nepaleses são hindus, cerca de 80%, mas o 10% que é budista tem uma presença forte, com muitos templos e monges rondando o país.

O país foi uma monarquia durante grande parte de sua história, até que em 2008 uma guerra civil cruel e sangrenta castigou o povo durante uma década, com o partido comunista (maoísta) usando violência pra tomar o sistema real. A guerra resultou em mais de 12,000 mortes, com massacres durante manifestações.

Em 2001 o príncipe Dipendra matou toda a sua família e cometeu suicídio dias depois. O irmão de Dipendra assumiu o trono. Mas foi só em 2005 que o novo rei tomou as rédeas da luta contra os maoístas.

A paz começou aos poucos em 2006, quando o país deixou de ser reinado hindu pra ser Estado laico. Em 2008 a paz se instalou na nova democracia e república.

Durante minha viagem no Nepal li o livro “Little Princes” de Conor Grennan (sem tradução em português) que conta a história verídica de um rapaz que faz serviço voluntário em um orfanato no interior do Nepal. Ele descreve a vida dessas crianças, como resultado da guerra civil no país. Elas não eram órfãs. Foram levadas de suas famílias nos vilarejos por um traficante de crianças, prometendo cuidá-las e educá-las durante a guerra e ser menos uma preocupação e carga financeira. Esta é apenas uma das histórias atrozes da guerra civil do Nepal.

Mas a guerra não foi capaz de tirar a gentileza, simpatia e o sorriso do povo nepalês. Por isso, adorei minha passagem pelo país e compartilho aqui o meu roteiro no Nepal.

 

Começamos a viagem em Katmandu, a capital (onde você pode pegar o visto no aeroporto, leve dólares pra pagar a taxa de US$25 e 2 fotos 3×4).

Katmandu é uma cidade suja, barulhenta e super populosa, mas do seu jeito, é interessante para “people watch” (observar pessoas), fazer compras (esta parte eu pulei), visitar templos e lugares sagrados.

As ruas são labirintos, no primeiro dia me sentia Alice no país longe de ser maravilha, mas aos poucos a gente se achava. Thamel é o centro do cidade, onde você encontra muitos turistas, lojas, hotéis, albergues, restaurantes e bares. Em Thamel fizemos amizade com outros turistas, o que é sempre bom quando você ta viajando por muito tempo.

Em Thamel recomendo o bar Funky Buddha Bar e o restaurante Electric Pagoda pra comida e bebida a bons preços e ambiente legal.

Pra se hospedar em Thamel, recomendo o Holy Lodge, uma pousada bem simples, mas tem quarto com banheiro, ar condicionado, água quente, wifi grátis e um terraço gostoso no último andar. Um quarto de casal custou US$12 por noite.

 

Em Katmandu você encontra paz nos templos e cidades sagradas. Os lugares principais são as cidades vizinhas de Patan e Bhaktapur, o templo hindu Pashupatinath e o templo budista Boudanath.

Ficamos 2 dias em Katmandu.

 

De Katmandu partimos pra Pokhara, de ônibus, que dura 6 horas e custa US$10.

O ônibus para perto do rio pra fazer rafting. Neste caso, tem que pegar outro ônibus até Pokhara. O segundo ônibus era bem acabado, quase uma carroça, só pra aventureiros. Ele vai a velocidades altas, quicando, numa estrada sinuosa e estreita. Por dentro, o ônibus estava caindo aos pedaços, lotado, com sacos de arroz, malas, comida até no corredor.

Pokhara fica no centro do Nepal, tem um lago e montanhas compondo uma linda vista. É outra cidade turística, cheia de atividades de aventura como parapente, tiroleza, trekking, etc. É o ponto de partidas de muitas trilhas. Tem passeio de barco pelo lago e visite o templo World Peace Pagoda (Pagoda da Paz Mundial).

 

 

Quando fui ver pousada e passagem de ônibus, o rapaz perguntou se iríamos fazer trekking. Eu estava meio hesitante sobre fazer trekking. Não sou atleta, estava viajando a meses sem fazer meus exercícios diários, comendo muito arroz e me sentindo sedentária. Mas o Nepal respira trekking. É como ir ao Brasil e não tomar um banho de mar. Então decidi aceitar o pacote com trekking. Foi o melhor que fiz e é o que eu recomendaria pra qualquer um que não tenha lesões físicas ou alguma incapacidade.

Você não precisa ser atleta nem ter muito preparo físico. Claro que existem trilhas e trilhas. Para algumas é necessário preparação física e equipamento correto, mas existem vários trekkings para iniciantes com o básico. Então, faça como eu, aceite o trekking, pague o guia e as pousadas e viva uma experiência extremamente humana e rica.

Nosso trekking começou em Phokara, dormimos lá uma noite.

Ficamos no Green Tara hotel, simples, mas limpo, a equipe é simpática. E tem também serviço de lavanderia, essencial pra volta do trekking.

Na manhã seguinte, cedo, deixamos as malas na pousada, colocamos a mochila nas costas e começamos o trekking.

Como você tem que carregar a mochila durante horas fazendo exercício pesado, o ideal é levar o menos possível. Eu passei 3 dias com esta mochilinha e sobrevivi. :) Requer um pouco de desapego, mas compensa.

 

No primeiro dia saímos de Phokara e subimos até Dhampus. O trecho foi todo de subida com degraus por dentro do montanha. O percurso durou quase 4 horas.

A subida com a altitude foi uma desafio pra mim, que as vezes parava pra pegar ar. Mas parar pra respirar com a vista verde, montanhas, rio e plantações de arroz era de suspirar ainda mais.

Em Dhampus, um pequeno vilarejo, ficamos na Anu Guesthouse. Só tinham casas ao redor e a vista das montanhas. A noite estava tudo escuro e choveu bastante, então ficamos na pousada. Todas as pousadas durante o trekking são bem simples, então não pode ter frescura.

O curioso é que no Nepal tem plantas de maconha por todos os lados, cresce naturalmente. Até no jardim da pousada tinha.

 

No dia seguinte partimos de manhã cedo para Sarangkot. O dia começou nublado e com muita neblina. Ao sair da pousada vimos uma moça passar com seu rebanho de búfalos. São estas cenas do dia a dia do povo que é gostoso ver e participar. O trajeto tinha subidas, descidas e percursos no plano, mas foi mais longo: 6 horas. Paramos pra almoçar no caminho.

Em Sarangkot ficamos na pousada Superview Guesthouse, sim, ela tem uma ótima vista. A família proprietária da pousada é uma simpatia. Soracha, a filha deles, virou uma amiga e companheira naquela noite de chuva intensa. A comida foi uma das melhores do Nepal – caseira, feita com carinho e saborosa.

 

De Sarangkot descemos de volta pra perto de Phokara. Este trajeto foi quase todo de descida, que por incrível que pareça, pode ser mais difícil. Dizem que pra descer todo santo ajuda, mas neste tipo de terreno, você tem que forçar o quadríceps o tempo todo pra se apoiar, então cria muita fadiga muscular. O trajeto foi de 3 horas.

Como estávamos na época chuvosa, pegamos calor com muita umidade, chegávamos pingando no final dos percursos, mas com uma sensação maravilhosa.

Tivemos sorte de não pegar chuva durante o dia, mas nesta época tem que levar capa de chuva. Outra coisa inconveniente do período chuvoso é que podem subir sanguessugas pelo seu pé. Então é bom checar quando terminar a trilha. (Eu não tive nenhum, mas vi um subindo meu sapato e tirei na hora).

Durante as trilhas, suando por todo poro do meu corpo, faltando ar e cansada, eu pensava: por que fazemos trekkings, trilhas e subimos montanhas? É simples – por que é difícil. A sensação de superação, de chegar ao topo, de terminar o percurso é uma injeção de ânimo.

E no Nepal, a experiência se completa ao andar pelos vilarejos e ver a vida como ela é. Eu parava pra observar e conversar com os moradores e essa troca foi tão rica, que eu me emocionava. Todos me recebiam com uma simpatia e simplicidade acolhedora.

Parei pra fotografar uma jovem que trabalha nos campos de arroz e ela gritou alguma coisa em nepalês. Nosso guia traduziu dizendo que se nós três parássemos pra ajudar no trabalho, ela acabaria rapidinho. Sorri e ela começou a rir depois de unir as mãos e dizer “namaste”. Eu ri também, adorando o seu senso de humor.

Você passa por plantações, casas, montanhas, rios e cachoeiras, que pintam um belo quadro. Você vê crianças trabalhando e brincando, mulheres lavando roupa, carregando pasto e lenha, idosos sentados vendo a vida passar, búfalos trabalhando a terra…

O cumprimento tradicional no Nepal ao ver alguém ou chegar em algum lugar é o “namaste”.

Namaste é mais do que “oi”, “olá”, “bom dia”, “como vai”. Namaste significa “o Deus em mim cumprimenta o Deus em você”.

Andando pelo interior do Nepal eu cumprimentei o Deus dos homens, mulheres, crianças e idosos. Juntei as mãos na frente do peito, abri um sorriso e cumprimentei muitos deuses.

 

Namaste também significa minha alma saúda a sua alma. O significado continua… Eu cumprimento e respeito o espaço, o amor, a luz e a paz dentro e ao redor de você.

Eu estava feliz, andando pelo Nepal, vendo imagens tão belas, que ao cumprimentar o espaço, a natureza, a energia, o amor, a paz e o Deus no povo e em mim, eu me sentia mais próximos deles. Naquele momento éramos muito parecidos, éramos parte daquele mesmo espaço, energia e paz, éramos como uma só coisa.

Terminei o trekking com dores musculares, mas a mente e o coração massageados.

 

Ficamos mais 2 noites em Pokhara pra relaxar e passear. Aproveitamos pra fazer a nossa manifestação pra apoiar o movimento no Brasil. Mesmo longe, meu coração brasileiro clama por justiça.

 

Em Pokhara aproveite pra fazer um passeio de barco, voar de parapente e visitar o templo da Paz Mundial.

 

Na volta de Pokhara pra Katmandu vivemos uma realidade do Nepal. No começo do trajeto, o ônibus é parado no meio da estrada por pessoas que colocaram pedras na rua e entraram no ônibus. Apesar de ter polícia ao redor, eram os civis que estavam fazendo a manifestação e que entraram no ônibus gritando em nepalês. O cobrador mandou todos os nepaleses descerem do ônibus e irem a pé. Nós, turistas, confusos e alguns alarmados não entendemos nada. Era uma greve que estava acontecendo por um rapaz que foi espancado até a morte pela polícia e a família não tinha recebido indenização.

Quando tem greve no Nepal, os locais não podem usar veículos de motor. O ônibus continuou até um restaurante de beira de estrada pra esperar os nepaleses que chegavam suados e exaustos. Isso aconteceu outras 3 vezes, até que o ônibus parou em outro restaurante até o final da manifestação. Ou seja, uma viagem de 6 horas virou uma de 14 horas. Ainda bem que eu tinha livro e iPod. Mas toda experiência cultural vale a pena.

 

Ficamos mais 2 dias Katmandu.

Em Katmandu fizemos um vôo panorâmico pelo Himalaia que foi simplesmente incrível. Ver algumas das maiores montanhas do mundo foi de uma beleza indescritível. O vôo custa US$165 por pessoa, dura 1 hora e sai do aeroporto de Katmandu.

 

O que comer no Nepal

A comida típica do Nepal é o dal baht (dal = lentilha, bhat = arroz), um prato com arroz, lentilha e verduras (as vezes vem um frango, mas no dia a dia dos nepaleses não tem carne), com curry e especiarias. Prove pelo menos uma vez, custa poucos dólares.

Você também encontra muitos restaurantes de comida tibetana, a minha preferida, com seus “noodles” – macarrão Asiático, sopas e momos (dumplings, ou pastéis cozidos recheados).

 

O que levar

Se for com mala, leve uma mochila pequena para o trekking. Outras coisas importantes: tênis de trilha (ou tênis normal), calça e camiseta que secam rápido (tem da North Face e da REI que você acha nos EUA ou da Trilhas e Rumos que você encontra no Brasil), toalha que seca rápido, nécessaire com tudo em tamanho reduzido. Lembre-se que no trekking você carrega sua mochila durante horas, leve pouca coisa. Se for no período de chuva (junho – agosto) leve capa de chuva. Chapéu, protetor solar e repelente sempre.

 

Quando ir

A melhor é época pra ir é de setembro a novembro, quando não chove. A partir de novembro começa o frio, e que frio! Eu fui em julho, época de calor e chuva, mas aproveitei e adorei do mesmo jeito.

 

Se eu gostei do Nepal? Muito.

Se eu voltaria? Com certeza.

O que verei na próxima vez?

O projeto Karuna Sechen do monge Matthieu Ricard.

O Parque Nacional Chitwan – pra ver a natureza, fazer outro tipo de trilha, ver elefantes tomando banho de rio, tigres e rinocerontes.

A região de Annapurna – pra ver o Himalaia de outro ângulo e fazer outro tipo de trilha.

 

 

20 thoughts on “meu roteiro no Nepal

  1. Que post lindo! Eu passei apenas três dias em kathmandu, mas foi suficiente para gostar muito do nepal e dos nepaleses. tão perto e tão diferente da índia. eu também voltaria (vou voltar!!), principalmente para fazer um trekking em pokHara e visitar alguns vilarejos. Bjs!

  2. Seus posts sobre a asia estão simplesmente fantásticos. Parabéns. Em março/14 iremos, Pela terceira vez, passar nossas férias por aí. São tantos lugares interessantes que a escolha dos destinos é sempre difícil. povo, cultura, história, gastronomia, absolutamente tudo é maravilhoso. aproveitem !

  3. OLá teté,
    Que surPresa boa Encontrar seu seu blog por acaSo! Estava fazendo uma pesquisa de livrarias acabei parando aqui!
    Depois do casamento eu e meu marido reSolvemos viajar, moramos 1 ano em kathmandu, acabamos de mudar de lá e viemos para bali RelaXar um pouco depois desse apaixonaNte caos! Me identifiquei muito com vc e seu blog! Parabéns!!!
    A partir de agora sempre estarei por aqui! Bjs

    • olá, tem várias em kathmandu. eu procurei uma lá na chegada, o guia era legal, mas o dono da agência, com quem negociei não foi legal, então joguei o cartão fora. procure no centro de Kathmandu ou com seu hotel.

  4. Nossa muito obrigada!!!!

    Estou planejando ir para o nepal sozinha justamente em julho heheheheh seu blog me deu muita luz para conseguir planejar minha viagem!!!!!

    Só uma duvida…..vc foi contratando as coisas na hora…como hoteis, treckings e tudo mais ou já tinha fechado com antecendencia?e pelo fato de eu ir sozinha acha que conseguirei fazer os treckings, passeios e afins :) ?

    Muitoooo obrigada!!!

    Muitooo obrigada mesmo!!!

  5. Olá! Obrigada pelo depoimento.
    Estou querendo conhecer a Capital em julho, mas estou com muito medo das monções asiáticas frustrarem o passeio. Infelizmente não tenho como programar essa viagem para mais cedo ou mais tarde, então teria que ser entre o dia 20 a 30.
    Gostaria de saber como foi a experiência de vocês, se o clima atrapalhou muito a viagem ou foi tranquilo? Tem alguma dica para me passar?
    Obrigada!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *


7 − = two

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>