agra

meu roteiro na Índia

Quinze dias não seria suficiente para a Índia. Isso eu já sabia. Eu imaginava que seria diferente de tudo e até seria um desafio. Só não imaginava que seria tanto.

Quinze dias seria, como a expressão em inglês, apenas “scratching the surface” (arranhando a superfície). Seria como degustar só a entrada e não chegar ao prato principal. Quem dirá a sobremesa.

E para estes quinze dias, decidi ver o colorido Rajastão, a sagrada Varanasi, aterrissando e decolando de Nova Déli, passando por Agra para realizar o velho sonho de criança de conhecer o Taj Mahal. Explico. Meu apelido é Teté e muitos me chamam de Teti, o que um tio adaptou pra Teti Mahal, talvez pela musica de Jorge Ben. Desde então quero ir ao Taj.

Bom, vamos ao meu roteiro na Índia.

Dias 1 e 2:

Nova Déli é um ótimo ponto de partida para explorar o Rajastão e o norte do país, pois tem várias opções de transporte e uma estrutura minimamente adequada. Ela é também o berço da história da Índia e uma das cidades mais antigas do mundo (você vai ouvir isso de muitas cidades na Índia). Com mais de 20 milhões de habitantes, a capital da maior democracia do planeta tem um dos índices mais altos de poluição, densidade demográfica sufocante, pobreza atroz, trânsito desesperador e caos que ronda.

Começamos a desbravar os monumentos históricos de Nova Déli com a Torre Qutub Minar, um minarete, símbolo da arquitetura indo-islâmica, Patrimônio Mundial da UNESCO, construído por um rei turco para celebrar sua vitória sob os Rajputs hindus.

 

De lá, seguimos para a tumba de Safdarjung, um mausoléu com bela arquitetura de mármore, é um exemplo da obra do império Mughal.

Passando de carro pela cidade é inevitável passar pelo Portão da Índia, um arco gigante construído em homenagem aos soldados indianos da Primeira Guerra Mundial.

 

Como Déli tem muitos templos hindus, começamos por um bem interessante, o templo sikh Gurdwara Bangla Sahib, a gurdwara ou casa de oração mais importante da religião sikh da cidade, conhecida por seus cúpulas douradas e lago sagrado. Como na maioria dos templos, tivemos que tirar os sapatos e nos templos sikh, tem que cobrir a cabeça com um pano. O templo sempre tem musica ao vivo enquanto os fieis deixam suas oferendas, fazem suas preces e se ajoelham e encostam a testa no chão na frente do livro sagrado. Este templo também é conhecido por alimentar milhares de pessoas diariamente com comida vegetariana. Conheci sua enorme cozinha com dezenas de mãos preparando o pão naan e o dhal (lentilha).

 

Dias 3 e 4:

De Déli, seguimos de carro para o norte, com Agra sendo a primeira parada, foram 4 horas de viagem.

A primeira surpresa foi que nem só do Taj Mahal é feita a cidade. Comecei a visita na tumba Itimad ud Daulah, a primeira do país a ser construída inteiramente de mármore. Este é outro mausoléu de rica arquitetura, nas margens do rio Yamuna, onde está o corpo de Mir Ghiyas Beg, um ministro importante da corte de Shah Jahan (imperador que encomendou o Taj Mahal).

 

O Taj Mahal é realmente tudo o que eu sonhei, e mais um pouco. Ele é imponente, majestoso. Adjetivos me escapam. Eu fui no pôr do sol e não no nascer do sol, os dois horários mais bonitos pra ver o Taj, quando os tons pasteis vão mudando. O fato dele ter sido construído como fruto de uma história de amor, faz dele ainda mais grandioso. Ah, o amor. Inacreditável também é conhecer a sua história e saber que ele está ali, firme, contra o tempo.

Ver o Taj Mahal com meus próprios olhos, apesar do calor, é como abrir uma porta que jamais se fechará. Aquele imenso, que antes só estava nos livros e na tela da TV, agora ao vivo, é mudar o “se” pelo “quando”, o “talvez” pelo “de fato”. De fato o amor move pessoas. De fato podemos ir aonde quisermos. De fato somos abençoados por poder enxergar belezas e poder estar de pé na frente de tamanha obra. De fato o homem é capaz de construir maravilhas.

Antes de me despedir de Agra, passei pelo Forte da cidade (Forte de Agra ou Forte Vermelho), uma imensa construção vermelha em forma de palácio-fortaleza, também Patrimônio Mundial da UNESCO.

 

Dias 5 e 6:

O bom de viajar de carro é poder parar entre uma cidade e outra, como fiz quando estava a caminho de Jaipur e parei pra visitar Fatehpur Sikri. Esta cidade abandonada foi a capital do império mughal, que demorou mais de quinze anos pra ser construída e conta com palácios, harens, mesquita, pátios, quartos, com uma riqueza de detalhes.

 

Jaipur é conhecida como a cidade rosa. Apesar do nome convidativo, ela não é esta jóia toda. Por isso, depois de ver o Palácio Real e o Palácio da Água (Jal Mahal), o melhor é seguir norte onde está o Forte Âmbar, a primeira residência dos Marajás de Kachchwaha, que você pode subir de elefante.

Mas se o calor te vencer a ideia de visitar (mais um) palácio te desanimar, Jaipur oferece produtos lindos pra comprar, como pedras preciosas, jóias, bijuterias, tapetes, roupas, sáris, lenços e muitos adornos.

Existem várias teorias pra explicar o tom cor de rosa da cidade, que na verdade é mais um terracota. As casas, lojas e templos são pintadas desta cor pode ser para diminuir o brilho da luz do sol ou pela devoção de um marajá pelo deus Shiva (sua cor preferida), ou quem sabe porque o marajá queria imitar a cor dos fortes e palácios dos seus vizinhos.

 

Dias 7 e 8:

Seguimos para Udaipur, uma viagem de quase 400 km.

No primeiro dia andamos pelo Lago Pichola que ao anoitecer tem um cenário dramático com seus palácios. A cidade tem um quê medieval com ruas estreitas e casa brancas. O City Palace ou Palácio da Cidade é bela construção.

A rua que dá no palácio é cheia de lojas cheias de coisas lindas pra comprar – roupas, cadernos de couro, bolsas, objetos de decoração…

Depois visitamos o Sahelion-ki-Bari, conhecido como o Jardim das Donzelas, que era um lugar de lazer para as princesas e mulheres do palácio.

Também fomos ao Templo Jagdish, um dos templos mais famosos de Udaipur, com estilo indo-ariano de arquitetura, dedicado ao deus Vishnu, o conservador do universo.

Em Udaipur fomos a outros templos (aliás, toda viagem à Índia tem muitas visitas a  templos) – Eklingji e Nagda, ambas fora da cidade, nas redondezas.

Eklingji é feito de mármore, dedicado ao deus Shiva.

Nagda, a antiga capital de Mewar, tem esculturas detalhadas, algumas eróticas com posições do KamaSutra.

 

 

Dias 9 e 10:

No dia seguinte partimos para Pushkar, passando por Ranakpur. Na estrada vimos caravanas de povos semi nômades viajando pra sua próxima parada, homens, mulheres, crianças, camelos, cabritos, bodes…

 

Ranakpur é conhecida pelos templos da religião Jainismo. O Templo de Ranakpur é o templo principal e junto com o Taj Mahal, foram as coisas mais lindas que vi na Índia. O templo é todo feito de mármore branco, com colunas e esculturas lindas. Em todo lugar que você olha tem detalhes, inclusive no teto, com mandalas maravilhosas.

Almoçamos em Ranakpur e seguimos para Pushkar.

Pushkar, apesar de pequena, é uma das cidades mais antigas da Índia. Situada na beira do lago Pushkar, é um lugar de peregrinação onde muitas pessoas vão até o lago pra se banhar e se purificar no ghats.

A cidade é famosa pela  corrida de camelos. É lá onde fica o único templo dedicado a Brahma. Dizem que ninguém reza para o deus Brahma, pois ele mentiu e foi punido.

Outro templo famoso na cidade é o Dargah do grande Sufi Moinuddin Chishti, que foi o santo Sufi mais famoso da Índia.

Dias 11 e 12:

De Pushkar voltamos para Déli e ficamos 2 dias. Visitamos o bairro Old Delhi, ou antiga Déli, cheia de templos e mercados (o mercado Chandani Chowk é o mais conhecido) e a famosa mesquita que fica perto, a Jama Masjid, imponente e de linda arquitetura.

Também fomos ao Forte de Déli e sua porta principal, o Portão de Lahori. A rua Chandani Chowk é interessante porque tem um templo jainista, um hindu e um sikh. Visitamos também o Memorial de Gandhi, que fica na casa onde ele foi assassinado.

Dias 13 e 14:

De Délhi voamos até Varanasi, a cidade mais sagrada da Índia, famosa pelo rio Ganges. Também conhecida como Benares ou Banaras, é outro lugar de peregrinação, onde muitos vão se banhar e se purificar no rio. A cidade é bem suja e intensa, com muita gente na rua, alem de riquixás, vacas, bicilcetas e carros. Todas as noites tem uma cerimônia na beira do rio para o agradecimentos deuses. Turistas podem sentar nos barcos pra ver melhor a cerimônia, ou assistir das escadas.

Lá fomos ao Museu Arqueológico, com a história de Buda. Sarnath é um templo importante, pois foi aonde Buda fez seu primeiro sermão.

A visita a Varanasi tem que ter um passeio pelo Ganges no amanhecer. Não conseguimos fazer o passeio de barco porque o nível da água estava muito alto, mas só de ver a cor do céu mudar e observar os fieis se banhando é uma experiência interessante. Varanasi tem muitos sadhus (guru religiosos que abandona sua vida e família para se dedicar a yoga, meditação e religião), mas dizem que nem todos são verdadeiros, alguns só se vestem daquela maneira e pedem um trocado pelas fotos dos turistas.

 

Dia 15:

De Varanasi voamos de volta para Déli e ficamos mais um dia.

Ao todo foram 15 dias, o que é um pouco apertado, mas deu pra ver bastante coisa. Gostei muito de viajar de carro pela Índia, é assim que você vê a vida pelas cidades.

A Índia foi o país que mais me desafiou, sem dúvida. Como escrevi aqui, amei e odiei e vivi momentos bastante árduos. Todas as cidades são sujas e intensas – com muita gente, carros, riquixás, vacas… Também tem muitos pedintes que te seguem durante minutos e não desistem, muitas vezes te tocam, pedindo dinheiro, usando queimaduras, lesões e bebês como chantagem emocional. Os homens encaram as mulheres como se fossem pedaços de carne, então aconselho se vestir de forma modesta. Tem histórias de homens que não só olham, mas tocam as turistas. A Índia é intrigante, colorida, viva e intensa. Vale a visita, mas requer uma preparação mental e emocional.

 

Dicas práticas para uma viagem à Índia:

Cubra o corpo, evite calça e short apertados e decotes.

Tenha sempre com você lenço de papel, álcool gel e papel higiênico.

Se prepare pra ver muita sujeira.

Na sua farmácia leve remédio para problemas gastro-intestinais.

Não beba nunca água da pia (acho que esta dica é só pra americano e europeu, mas tudo bem…) e cuidado com garrafas de água mineral – escute o lacre fazer 3 cliques pra ter certeza que estava realmente lacrada. Isso mesmo, 3 cliques.

Nada de gelo, salada e fruta sem casca.

Apesar das frustrações, fique calmo.

Para minimizar frustrações, viaje com uma empresa que faça seu tour com carro com ar condicionado e guia. Eu viajei com a Yatrik e foi maravilhosamente bem planejada e fui muito bem servida. Com certeza farei meu próximo tour na Índia com eles.

Escolha bem a sua rota, o país é enorme e diverso, cuidado pra não ficar cansativo.

7 thoughts on “meu roteiro na Índia

  1. também fiquei 15 dias na India, mas não explorei o Rajastão além de Jaipur. Gostei de Jaipur e Amei todo o resto, mas fiz tudo 100% independente. Engraçado que para mim este foi o ponto alto da viagem: poder estar no país mais desafiador que já conheci sem precisar de guia. Recomendo! Deu um medinho mas chegando lá vi que foi super tranquilo. Acho que enriqueceu bastante a viagem e a maneira como eu enxerguei o país.

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