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Martinha, a primeira taxista mulher de Maputo

Martinha, 40 anos de idade, casada, mãe de 4 filhos.

Primeira taxista de Maputo.

Assumiu esta profissão há 2 anos atrás quando perdeu seu pai, também taxista, aos 83 anos vítima de um assalto.

Entre os bancos da frente, um livro lhe entretém, entre um passageiro e outro. O livro “Um História de Poligamia” de Paulina Chiziane, escritora moçambicana mais conhecida em Portugal do que em Moçambique, foi presente de uma cliente e amiga portuguesa.

“O livro fala sobre o problema que estou vivendo.” diz Martinha.

O marido teve uma filha com uma “fulana” e ela sofre com seus “miúdos” a mudança do relacionamento. Ainda vivem juntos, mas tudo mudou.

Diz ele que foi ter uma filha com outra porque ela não conseguia lhe dar uma menina. Já tinha 3 rapazes. Neste meio tempo ela engravidou de uma menina.

Ela tentou de tudo pra ter seu marido de volta. Foi a rituais no beira do mar, tomou banhos de curandeiras, mas nada adiantou. Hoje ela sabe que tem o que pode ter, o que Deus quer lhe dar. Se ele não voltar, ele não é dela.

Sobre o futuro, ela diz que tem dois pensamentos. Ou abandona os filhos pra viver outro amor, ou vive para os filhos, abdicando de sua juventude e sabe que um dia eles vão seguir a vida e ela não terá um companheiro ao seu lado.

“Abandonar os filhos porque?” pergunto. Por que é difícil uma nova família e uma nova sogra aceitar quatro filhos de outro homem.

“Já pensou em se separar?” pergunto. Divórcio? Também é difícil. Como conseguiria viver e sustentar os filhos com um salário tão baixo?

Quando pergunto se o povo Moçambicano é feliz, ela diz que nem todos. Existe muita desigualdade social. Enquanto uns compram no supermercado, outros compram na feira. Enquanto os filhos de uns estudam inglês, os filhos de outros estudam sentados no chão, não há nem carteiras.

Mas ela é mãe de quatro filhos, tem um trabalho, não precisa pedir nada a ninguém, portanto, se considera feliz. Tem orgulho do que faz e gosta do seu trabalho.

Gostaria de ter mais um pouco, pra fazer a festa de aniversário da filha, pra comer um camarão. Mas é feliz com o que tem.

Felicidade pra ela é ter um bom emprego, estar bem com o marido, ter um marido companheiro pra conversar e planejar a próxima reforma, ter os filhos saudáveis, conseguir dar o mínimo pra eles.

Obrigada, Martinha, por um dia tão especial em Maputo.

Começou com uma simples ida ao museu, de lá buscamos Cai no colégio, seguimos pra Costa do Sol, conversamos, passeamos…

Entramos na maré baixa pra ver os rituais dos maziones, comemos frango piri piri cantando “deixa a vida me levar”. E descobrimos que somos felizes com o que temos.

Ao nos despedirmos, aquele abraço fraterno, enterrada nos seus seios fartos, encolhida pelos seus braços protetores, não contive as lágrimas.

Sei que ganhei uma nova amiga em Maputo. Uma amiga forte, sábia, generosa que jamais esquecerei.

Me espere, Martinha, eu “ei” de voltar.

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