américas

Machu Picchu – mistério e misticismo

“Percebo que você é muito sensível.” Disse o guia com um tom sereno. “Vejo que está admirada e triste. Somos um povo melancólico e calado, mas com coração cheio de amor. Nosso carinho sai pelas palavras. Nossas crianças riem, porque a vida delas está apenas começando. Nós, os mais velhos, já sentimos tantas coisas, e talvez por isso o sorriso vem se apagando. Mas a alegria ainda existe, lá dentro.”

Machu Picchu, a cidade sagrada dos Incas, aninhada no alto da montanha, abraçada pela névoa, é um sítio arqueológico cheio de mistério e misticismo, onde tantas pessoas vão em busca de espiritualidade e autoconhecimento.

machupicchu2

O que me levou aqui? Admiração pela cultura, respeito pelo legado deixado pelos antepassados indígenas, que deixaram valores, majestade, sensibilidade e sabedoria.

A alma do povo se conserva protegida pelos costumes milenares. Ainda se falam dialetos, se cultiva a terra, se tece a roupa, se esculpem artesanatos e se crê na memória sagrada da cultura.

Ao ver e sentir a herança histórica que deixaram os Incas, nos damos conta da grande perda de valores e desumanização que vamos sofrendo com a modernidade e a tecnologia, criando o afastamento do simples, do próximo, do significativo, do palpável e da natureza.

A inocência, simplicidade e humildade é perceptível nos indígenas andinos peruanos. Descem montanhas, escadas e ladeiras com lenha, comida, filhos, panos, artesanatos e paciência pendurados nas costas. De um futuro sem a carga de tantas demandas, vem a urgência de sobreviver o dia de hoje, de manter-se presente. Do passado não se tem apego e o futuro é um desconhecido sem peso. Por isso a inocência conservada é para viver um presente claro e real.

A inocência, esta que nasce com a gente, não se aprende e não tem passado, não tem o que esquecer, apagar ou corrigir, é sempre alegre. Ela desconhece a dor, a perda e nem precisa de coragem, pois também desconhece o medo.

Andar pelo Vale Sagrado e Machu Picchu é experimentar em momentos esta inocência. É recordar a própria simplicidade, voltar a mergulhar nela e limpar conscientemente a mente de pensamentos antigos, sem valor. É sentir que este povo simples, porém sábio de uma forma tão instintiva, te ensina a ver o mundo de outra forma, espiritual  com base na natureza. Esta iniciação não precisa ser um ritual, nem com fundo religioso. Não tem fórmula mágica. É apenas um estado de consciência. Consciência de somos parte do todo, e portanto é integrando nos a esse todo que entretecemos energias.

machupicchu4

Mas os indígenas andinos tem rituais sim. Com música, dança e ritmo. A cantoria move energias. Ao cantar, a voz é um instrumento, expressando essa energia. Os ritmos quebram o silêncio. Os sons musicais têm poder de cura. Eles têm sons e músicas para a terra, a água, o vento e o fogo. Cada um tem seu próprio som, ou Ícaro, que vibra para equilibrar-se. A dança também move energia. Em círculo, o movimento ajuda a Terra a seguir girando, com a força coletiva. Os dançarinos são a dança que por sua vez é energia, que corre como o vento sopra, como rio flui.

A 2,430 metros de altura, em um lugar asilado e de difícil acesso está o parque arqueológico de Machu Picchu. Entre o cânion de Urubamba e as montanhas de Wilkabamba, se construiu um vale. A seus pés enxerga-se o rio sagrado Wilkanota, que rodeia a península de Picchu. Suas águas continuam até a selva amazônica.

Chove muito por lá, durante quase nove meses, de agosto a abril, portanto a umidade alimenta uma vegetação e toda a área é conhecida como o “reino do nevoeiro”.

machupicchu3

Machu Picchu era conhecida por alguns indígenas que vivam naquela região a mantinham em segredo. Aonde hoje tem um hotel viviam camponeses com sua família. Em 1911 chegaram 3 homens na casa do casal, em busca de uma cidade, que segundo eles tinha sido o último refúgio dos Incas. Um dos homens era o americano Hiram Bingham. A troca de uns trocados, o filho dos camponeses os guiou até o santuário. Esta criança humilde e inocente, foi quem levou Bingham pela primeira vez à sua grande descoberta arqueológica e sequer foi lembrado nem na história nem na placa de bronze na entrada da “Cidade da Paz”. De fato, este foi o refúgio Inca, onde os espanhóis jamais conseguiram penetrar. Como sabemos? Pela falta de uma igreja.

Naquela madrugada, o menino que servia o café da manhã na pousada me deu umas folhas de coca, caso sentisse o mau de altura e outras para uma oferenda, que ele orientou antes de entrar em Machu Picchu, eu devia fazer uma oferenda à Pachamama, a Mãe Terra, a mãe de tudo. Com uma cocamama inteira e perfeita, eu teria que levantar os braços segurando a folha com as duas mãos, agradecer e pedir licença para entrar e liberá-la ao vento. E assim entrei a este centro de grande energia, onde os espíritos das montanhas cuidam dos segredos mais antigos daquele lugar. Ao sul está a “montanha antiga” – Machu Picchu. Ao norte está a “montanha jovem”, Wayna Picchu (a mais fotografada do parque).

Quando chegar a esta montanha sagrada, deixe a câmera, silencie-se, feche os olhos e sinta Machu Picchu. Sinta a energia, escute como ela te recebe e permita que este lugar sagrado te sinta e te receba também. Ao abrir os olhos verás novamente a imponência da cidade. O tempo pode até parecer parar.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *


7 + = nine

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>