Ásia

Haven, um restaurante inspirador em Siem Reap, Camboja

Sara é uma suíça de 37 anos, casado com Paul, que até outro dia eram mais um casal viajando o mundo. Em 2008 eles saíram da Suíça rumo à Indonésia por terra, usando apenas transporte público. Eles tinham juntando dinheiro e queriam ver o mundo. A viagem durou um ano e meio passando pelo Leste Europeu, Rússia, Mongólia, China e todo o Sudeste Asiático.

Quando pergunto a Sara porque ela saiu da Suíça em primeiro lugar, ela responde que constantemente pensava “a vida deve ser mais do que isso”. Algo faltava.

E vida provou que era muito mais do que aquilo.

Nesta longa viagem ela se apaixonou pelo Camboja. Iam ser duas semanas de estadia que viraram três meses, e ela só saiu porque já tinha combinado um encontro com uma amiga na Malásia.

Nestes primeiros três meses o casal fez trabalho voluntário em um orfanato, contato de um fotógrafo britânico que conheceram na China (ah, as pessoas que conhecemos na estrada…). Chegaram lá e encontraram um lugar sem estrutura nenhuma, não tinha cozinha, o banheiro era um buraco no chão, não tinham cadeiras, nem quadro negro, quem dirá livros. Coletaram fundos na Suíça e transformaram o lugar, construindo cozinha, banheiro, instalando salas de aula, comprando materiais e organizando um método de ensino.

Foi neste orfanato que nasceu a ideia do negócio que eles hoje administram e são proprietários em Siem Reap. Eles queriam ter uma empresa com fins lucrativos, sustentável, mas que ajudasse os órfãos. Juntando seus know-hows (Paul é engenheiro de alimentos e Sara trabalhou com marketing) e o crescimento de Siem Reap, onde há uma demanda crescente para serviços de alimentação e hotelaria, a conclusão foi a de abrir um restaurante, mas não um restaurante qualquer.

Em 2010, de volta à Zurique, a vida retomou um ritmo acelerado, onde eles trabalhavam, faziam o plano de negócios, abriam uma associação e juntavam cada centavo possível. Eles estavam determinadas, ou melhor, apaixonadamente obstinados pelo sonho de abrir o Haven.

Neste meio termo, de muito sonho e trabalho, eles tiraram umas “férias” e foram para o Camboja, não só pra matar a saudade, mas pra pesquisar o local onde eles abririam o restaurante. Ao ver a cidade já transformada e estar em contato novamente com a tão amada cultura khmer, eles decidiram que não poderiam esperar muito mais e colocar uma data mais próxima para a grande mudança de vida e início de empreitada.

No final de 2010 eles abriram a Dragonfly, uma associação baseada na Suíça que financia e apóia projetos educacionais para jovens órfãos, vulneráveis ou desprovidos de áreas carentes e rurais do Camboja.

O primeiro projeto desta associação é o restaurante Haven, que não seja confundido com heaven).

A palavra haven em inglês significa abrigo, refúgio.

Sara e Paul tinham um sonho, ele virou realidade. Haven, este restaurante em Siem Reap oferece a estes jovens desprovidos treinamento vocacional na indústria de alimentos e bebidas e dá assistência na transição de alguma instituição (seja um orfanato, campo de refugiado ou residência) para uma vida independente, com a chance de sair da pobreza. Neste período de treinamento o Haven também fornece alojamento, alimentação e tratamento médico para os jovens.

Este lugar, que é um oásis em Siem Reap, bonito, aconchegante e de comida deliciosa, foi outra grande transformação feita com as próprias mãos do casal.

O lugar era um galpão abandonado nos fundos de um salão de beleza decrépito frequentado por prostitutas. Eles botaram tudo abaixo e começaram do zero, criando um novo lugar, um novo ambiente, um novo astral.

Neste período eles tiveram que ser vários em um – arquitetos, construtores, advogados, jardineiros, investidores, gerentes… E a trajetória além de longa, teve muitas pedras no caminho. Com o governo corrupto do Camboja, a construção foi atrasada. Uma enchente retardou um pouco mais o processo. Muitos móveis e acessórios tiveram que ser devolvidos inúmeras vezes até sair da forma correta.

Uma vez aberto, outras dificuldades surgiram – uma trainee desapareceu (mas foi reencontrada), a casa deles foi saqueada, entre outras dificuldades de comunicação, contratação e manutenção.

Mas o sonho sempre falou mais alto e o universo conspirou a favor.

Um exemplo desta conspiração positiva foi a chegada do cozinheiro. Eles não tinham ninguém na equipe ainda e um dia um dos melhores chefs de cozinha da cidade bate na porta deles. Ele tinha ouvido falar do Haven e pediu trabalho. Era bom demais pra ser verdade. No final da entrevista, encantada, ela pergunta porque ele queria trabalhar no Haven e ele respondeu que ali ele faria o que ama, cozinhar, e ao mesmo tempo ajudaria as pessoas do seu país.

“Você pensou em desistir e ir embora?” pergunto. “Muitas vezes e nunca” Sara responde e continua “quando as dificuldades maiores vinham eu me perguntavam – que outra coisa eu faria? Não tem nada que eu ame tanto como o Haven. Vinha uma certeza que nenhuma outra coisa a completaria. Uma vez que você se dedica a ajudar outras pessoas e faz algo com um propósito maior, é difícil mudar de projeto/ocupação/trabalho.”

Sara, que não tem filhos (nem nunca quis) diz hoje ter mais de vinte. O projeto começou apenas com órfãos, mas hoje tira de um passado triste jovens vítimas de abuso doméstico, tráfico, etc. As instituições que cuidam destes jovens entram em contato com o Haven e com uma entrevista o processo é iniciado. Para fazer parte do treinamento o jovem deve falar inglês e ser motivado, o resto vem com o tempo. Como parte do treinamento eles têm aula de inglês, finanças e “habilidades de vida” (como proceder ao sofrer um abuso ou alertas sobre convites de morar em outros países em troca de trabalho).

As gorjetas recebidas no restaurante são depositadas em um banco e eles só recebem no final do treinamento (com duração de um ano) pra começar uma nova vida.

Quando pergunto a Sara qual é a sua relação com o Camboja ela responde “a forma mais pura de amor” e lembra quando pegou o vôo rumo à sua nova vida em Siem Reap e ouviu a aeromoça falar em khmer, lágrimas desceram no seu rosto e veio a certeza de que tinha tomado a decisão certa. Em seguida ela recita uma frase de Joseph Mussomeli, ex embaixador americano no Camboja:

“O Camboja é um dos lugares mais perigosos que você conhecerá. Você se apaixonará e eventualmente ele quebrará seu coração.”

Ela diz que muitas coisas quebram o coração dela no Camboja, mas ele continua amando o país e que a relação não é de amor e ódio. Não há ódio.

Ela é apaixonada pelos cambojanos. “São pessoas amáveis e fascinantes. Eles tem a habilidade de seguir adiante e não cultivam o ódio, apesar de uma história triste. São almas puras.”

A hospitalidade é outra característica adorável dos Cambojanos. “Eles não tem nada, mas dão o pouco que têm, sem hesitar.”

Ela conta que na cultura cambojana, comida é algo que se consome compartilhando. Seus funcionários, trainees e amigos sempre a convidam para sentar e dividir o que tiverem comendo.

Quando pergunto o que ela aprendeu nesta jornada, ela suspira e diz que são muitas lições para apenas um bate-papo, mas diz que percebeu o quão adaptáveis podemos ser quando temos um sonho e um objetivo. Ela largou um emprego de marketing e virou arquiteta, peão de obra, jardineira, gerente, professora, psicóloga e outras tantas coisas. Em um país bem diferente do dela.

Ela aprendeu também a não se frustrar tanto quando as coisas não acontecem como o no ritmo desejado. “Com as almas puras que convivo aqui, aprendo todos os dias e sinto que uma luz ascendeu dentro de mim.”

Sem dúvida, ela aprendeu a improvisar. Quando os obstáculos aparecem ela canta a música da banda Placebo “hold your breath and count to ten, fall apart and start again” (prenda a respiração e conte até dez, desmorone e comece novamente).

Quando elogio pela milésima vez o seu trabalho e digo que ela, além de ser especial, tem anjos da guarda, ela diz que acredita em uma força maior, que não sabe dizer o que é, mas que a ajudou muito.

Tocada, inspirada, emocionada, entro em um tuk tuk em lágrimas, determinada a compartilhar esta mensagem de amor. Obrigada Sara, por tanta inspiração e por fazer meu coração transbordar (mais uma vez) de emoção no Camboja.

Quer ajudar este lindo projeto? Comece degustando uma das melhores refeições do Camboja no Haven e espalhe este projeto encantador.

(Foto: divulgação)

Haven Training Restaurant
Siem Reap, Camboja
+855 78 34 24 04
[email protected]
www.facebook.com/HavenCambodia
Atenção: a partir do dia 1 de dezembro de 2015 o restaurante mudará de endereço para Wat Damnak.

7 thoughts on “Haven, um restaurante inspirador em Siem Reap, Camboja

  1. Eu já tinha anotado a dica desde que você falou sobre o Haven no instagram (ou foi no twitter?), mas com esse post você conseguiu me emocionar! Com certeza irei prestigiar esse trabalho! O Camboja já me toca tanto, mesmo antes de eu pisar lá, que eu tenho até medo de ser uma dessas pessoas que não voltam mais.

  2. Pingback: Siem Reap, Camboja – história, cultura, arte e muita emoção | Escapismo Genuíno

  3. Olá, parabéns pelo site. Tbm me apaixonei por seam reaP E ESTOU VOLTANDO PARA LÁ EM FEVEREIRO. :)
    gOSTARIA DE SABER SE É NECESSÁRIO RESERVA PARA JANTAR NO HAVEN.
    tAMBÉM GOSTARIA DE SABER SE VC SABE DE ALGUM PROJETO SUSTENTÁVEL PARA OS ELEFANTES PERTO DE SEAM REAP [OU SEJA, SEM TRUQUES, SEM PODER MONTAR NO ANINAL ETC].
    mUITO OBRIGADA!

    • Olá Maira.
      É melhor reservar o The Haven sim, pois está sempre lotado.
      Para ver estes projetos, vá na Beyond Unique Experiences, eles tem uma loja no centrinho e tem tours sustentáveis.
      boa viagem!

  4. Eu conheci o haven nesta mesma página que agora escrevo, enquanto pesquisava coisas para uma futura viagem ao sudeste asiático. Depois de ler esse lindo texto e me emocionar eu fiquei querendo muito ir lá. e fomos e sentimos de perto todo o amor e a dedicação que eles, em especial a Sarah, colocam em seu propósito. e novamente eu me emocionei muito lá, pois a Sarah me lembrou muito uma amiga muito querida que nós perdemos no ano passado, então foi uma avalanche de emoções. nem só por essa incrível semelhança, mas pela conversa que nós tivemos depois do jantar e principalmente pela maneira apaixonada com que ela fala deste inspirador projeto. Um excelente jantar e uma linda causa.

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