Ásia

Cooking with Poo – uma aula de culinária socialmente responsável em Bangkok

Se você lê meu blog e me acompanha no instagram, já deve ter percebido que eu amo comer. E pra mim uma das melhores culinárias do mundo é a tailandesa. Com aromas fragrantes, especiarias coloridas e saborosas, a comida tailandesa nunca deixa de surpreender.

A primeira vista, os pratos podem parecer difíceis de preparar, mas na verdade é mais simples e rápido do que você imagina. O segredo está nos ingredientes e na preparação. Tudo sem que ser bem cortado, amassado, misturado.

Cozinhar é um dos meus hobbies, adoro ficar horas na cozinha, bebericando um vinho e preparando pequenas porções pra meu marido. Por isso, tenho feito nesta viagem algumas aulas de gastronomia.

Tenho que dizer – muitas das pessoas incríveis que conheci nesta viagem, foi cozinhando. Também acredito que aprender sobre o que um povo come, como ele prepara seu alimento e como o degusta é mergulhar profundamente na cultura. Comida e tradições andam de mãos dadas, por isso, quando viajar busque a oportunidade de cozinhar e comer com o povo local.

Melhor ainda se você pode cozinhar, aprender sobre a cultura e ajudar as pessoas, não acham?

Quando minha amiga Angelina me falou sobre a aula de culinária da Poo em Bangkok, fiquei encantada. Corri pra marcar e já estava lotada. Ainda bem que fiquei um mês na Tailândia e pude fazer a aula na volta pra Bangkok.

Cooking with Poo – a aula de culinária da querida Khun Poo em Bangkok, não é uma aula qualquer. Há cinco anos Poo administra (cozinha, limpa, arruma, cuida…) esta escola de culinária que faz parte de um programa social chamado Helping Hands.

Moradora de Klong Toey, a maior favela de Bangkok, Poo era uma vendedora de noodles (macarrão asiático), preparando milhares de porções diariamente, lutando com a pobreza. Ela sempre amou cozinhar e a fila em frente a seu carrinho era sempre longa.

Sua vizinha, uma Australiana fazendo trabalho social, um dia lhe sugeriu começar uma aula de culinária. Envolvida pelo medo e inseguranças, ela disse que ainda não conseguiria. Seu inglês era fraco, não tinha dinheiro nem pra reformar o banheiro (um buraco no chão), como receberia alunos?

Poucos anos depois, Poo criou coragem, aceitou um dinheiro emprestado da sua vizinha Australiana, e abriu uma portinha, uma pequena sala, simples, mas cheia de carinho, em frente a sua casa a fim de compartilhar suas receitas.

Cinco anos depois, ela já mudou de sala três vezes, ampliando e melhorando o espaço onde ela ensina com muita vivacidade os segredos dos pratos tradicionais tailandeses.

No topo da lista do TripAdvisor de coisas pra fazer em Bangkok e chamada pela CNN como a “maior tendência de viagem de Bangkok”, suas aulas estão sempre cheias e o amor se espalha. Amor pelos ingredientes, pela comida, por ajudar ao próximo, por esta batalhadora que muda a vida de pessoas ao seu redor diariamente.

Ela pode ter crescido como empreendedora, mas Poo continua morando na mesma rua da favela Klong Toey, de forma simples, mas digna. Com um livro de receitas lançado, ela celebra cada conquista. Uma porcentagem do lucro vai para a educação e profissionalização dos moradores da favela. Ela quer ver outras pessoas saindo da pobreza, como ela conseguiu.

A aula começa pela manhã, com uma visita ao mercado. Antes era a própria Poo que fazia o tour, mas agora ela tem assistentes. Confesso que isso foi uma pequena decepção.

Andando pelas trilhas enlameadas e frenéticas do mercado Klong Toey, nossa guia recomenda sair do caminho dos compradores e nos convida a conhecer o mundo dos ingredientes locais.

Passamos por barracas e quiosques que vendem de tudo – sapos vivos pulando dentro de redes, peixes-gato se debatendo, enguias brilhando na água, insetos fritos, peixe fermentado (o pior cheiro do mercado), temperos, partes de animais sendo abanados por conta das moscas, frutas e verduras coloridas…

Mangas, jacas, rambutan, mangustão, lichias, durians sentam em pirâmides formando um belo arco-íris. As berinjelas vem em diferentes tamanhos e cores, as enormes em púrpura, as pequenas verdes que parecem mais um tomate.

Esta é a diversidade envolvente dos produtos da Tailândia. São sete diferentes tipos de curry, cinco de gengibre, quatro de vagem, seis de manjericão… (Posso ter inventando alguns destes números) mas que a variedade é imensa, é, e cada um tem seu tom, cheiro e textura. Uma riqueza.

Enquanto me desvio do movimento das cestas que vão sendo recheadas com estas delícias, alterno entre fotografar, tocar e cheirar. Na seção das aromáticas ervas – manjericão, capim limão, curry, coentro, chilli, inalo profundamente, chegando a fechar os olhos. Não tomei café e estou ansiosa pelo pratos que vou preparar e degustar.

Cada ingrediente tem um função. Os tailandeses, diz a guia, cozinham de forma inteligente. Uma ingrediente complementa o outro. Chillis são ótimos pra ir no banheiro e limpar tudo. Coco faz bem pra pele. O arroz é quase sagrado.

O sol começa a castigar, já estou pingando, como já estou acostumada no calor úmido de Bangkok. Do mercado até a favela de Klong Toey é uma curta viagem com a van, que o marido de Poo dirige.

Eu já estive em centenas de mercados e algumas poucas favelas, mas eu podia ver as mandíbulas abaixando e os olhos arregalando de alguns farang (palavra para estrangeiro em tailandês).

Chegando na favela, passamos por um labirinto de ruelas estreitas com casebres coloridos, todos tem caqueiros de plantas, roupas secando na janela e um ou outro exibe um sorriso de um morador passando. O cheiro forte e pútrido do canal faz nossos narizes torcer. As casas são praticamente montadas umas nas outras. Dá a impressão que se um vento bater, tudo desmorona. Mas como um todo, é uma favela arrumadinha, pra quem é brasileiro.

Klong Toey é uma comunidade acometida pela pobreza e todos os problemas sociais envolvidos – crime, doença, drogas. Mas não é um lugar repugnante nem amedrontador. A maioria dos residentes ali são conhecidos como Isaan, do norte da Tailândia e imigrantes ilegais dos países vizinhos (Laos, Camboja e Mianmar).

Passar pela favela, cumprimentando as pessoas, com um propósito de estar lá, é, sem dúvida, parte fundamental da experiência.

Uma vez todos hidratados, de mãos lavadas, e vestidos com os cômicos aventais (que dizem “I cooked with Poo and I liked it”, fazendo um trocadilho em inglês dizendo “Cozinhei com Poo – que também quer dizer cocô – e gostei”) sentamos na sala compacta, porém refrigerada de Poo e ouvimos o cardápio do dia:

Salada de pomelo (uma fruta que lembra a grapefruit Americana) com frango.

Sopa de frango e leite de coco.

 

Arroz frito com frango e verduras.

Em seguida, cada participante vai pra seu “fogão”. Poo apresenta os pratos e seus ingredientes, dando dicas valiosas de como cortar e preparar e que tipo de ingrediente usar (incluindo substitutos, caso você não encontre algum no seu país). Como quase tudo já foi lavado e já está sem casca, a preparação dos pratos é rápida e simples.

Começamos a cortar, bater, mexer e os aromas invadem a sala.

A este ponto já estou salivando como um cão faminto. Poo simplificou bastante as receitas então não tem grandes desafios, portanto você não precisa ter experiência nenhuma na cozinha pra fazer esta aula.

Em minutos tenho um prato em mãos pra degustar sentada, conversando, passando mais tempo socializando e rindo do que cozinhando. Ou seja, uma delícia de programa.

Este aspecto social – conhecer pessoas de outros países e backgrounds, é outro aspecto encantador da aula.

Um dos momentos engraçados da aula foi enquanto eu mexia cuidadosamente minha sopa e conversando com Poo, ela pergunta: “você conhece Jamie Oliver?” “Claro!” respondo. “Eu não conhecia….” Poo continua. E conta que “um tal” de Jamie Oliver ficava ligando, pedindo para cozinhar com ela, mas ela sempre respondia que estava muito ocupada, cheia de alunos, muito trabalho com as aulas e o projeto social dela. Até que finalmente ela aceitou o convite e em janeiro ela vai tirar “umas férias” pra cozinhar com Jamie Oliver. Então fiquem atentos ao programa a partir de fevereiro, pois em algum momento a querida Poo aparecerá.

Depois de degustar os três pratos e a indulgência da minha sobremesa preferida – arroz grudento com molho de coco e manga fresca, além de satisfeita fisicamente, me invadiu a gostosa sensação de ter participado de um programa divertido, cultural e do bem.

E mais – qualquer comida que você não terminar, elas colocam em saquinhos plásticos pra você levar.

Fazer parte deste ciclo me deu satisfação, humildade e entretenimento que só posso agradecer e divulgar para que outras pessoas possam ter esta oportunidade.

Poo, apesar de hoje ser dona desta escola, e ter um certo status na favela, ela não para um segundo. Ela não só ensina, ela conversa, ri, lava, corta, administra e entretém. Ela é um exemplo de coragem, superação e trabalho. Seus vizinhos da favela Klong Toey têm sido ajudados para estudar e melhorar suas condições de vida e trabalho graças a este projeto.

Obrigada, Poo!

 

No final da aula, Poo nos leva pra uma pequena casa com artesanatos feitos pelos vizinhos, quem Poo já está ajudando. Ali tem coisinhas feita com carinho por pessoas com passados doloridos – ex prostitutas, ex drogados, pessoas que sofreram abusos e violências.

Que fique claro que a escola de culinária Cooking with Poo não é uma caridade, é um negócio. Um negócio que gera lucros e ajuda outras pessoas. E é esta sinergia e ciclo virtuoso que fazem desta aula, uma atividade admirável e aprazível pra fazer em Bangkok.

Se você é um foodie, experiente na cozinha, e quer um desafio, esta aula não te surpreenderá. A aula é básica, para iniciantes, ou pra quem quer se divertir, conhecer o bê-a-bá da gastronomia tailandesa (ou seja, pratos mundanos, sem muito fru fru), e quer fazer parte de um projeto bacana.

As aulas de Poo são oferecidas 6 dias por semana. Reserve com antecedência, pois as aulas lotam rápido. Você pode reservar (fazendo o pagamento integral) no site, usando cartão ou PayPal, é fácil.

www.cookingwithpoo.com

A aula custa 1.200 bahts, ou cerca de US$38.

A aula é de 8:30 (horário do encontro com o grupo) e termina por volta das 12:30.

Nesta pesquisa sobre a felicidade que tenho feito, penso comigo – o que faz as pessoas felizes? Ah, tantas coisas… Ajudar é uma delas. E viajar fazendo atividades socialmente responsáveis é outra.

 

5 thoughts on “Cooking with Poo – uma aula de culinária socialmente responsável em Bangkok

  1. Que bacana, Teté! Esse é o tipo de experiência que eu nunca tive em viagens, mas é bem a minha cara. Na próxima vou tentar :) Socializar e comer são duas das coisas que eu mais curto nessa vida. Lindo texto!

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