devaneios

carta para Cindy, a dor e delícia de ser agente de viagem e porque viajo

Cindy é uma amiga chinesa. Nos conhecemos em 2006 quando éramos voluntárias em uma ONG e viajamos para diferentes países. De lá pra cá nos correspondemos por cartas e quando ela consegue (devido ao controle da internet pelo governo chinês), por email e pelo Facebook.

Cindy me escreveu uma carta recentemente e esta é a minha carta pra ela.

Querida Cindy,

Obrigada pela carta e pelo cartão postal enviados para meu aniversário. Eles trouxeram um sorriso sincero para o meu rosto. Em tempos como estes, onde as pessoas vivem ocupadas, não têm tempo pra nada, e não conseguem desgrudar dos celulares, uma carta escrita a mão é uma pequena alegria e uma enorme tesouro.

Fico feliz em saber que você continua praticando o piano. Por mais clichê que soe, a verdade ainda é que devemos segurar firme nos nossos sonhos. Eu tive um sonho, ainda na faculdade, de viajar o mundo por um ano. Em março de 2013 eu embarquei nesta viagem. Viajei durante 13 meses, por 30 países e meu sonho se transformou em realidade. Foi tão real, mas ao mesmo tempo parecia um sonho. As vezes ainda parece que foi tudo um sonho. Revi muitos amigos e sou muito grata pelas amizades que deixei espalhadas pelo mundo. Obrigada por ser minha amiga.

Estou de volta já faz um ano (!). E durante todo este tempo estive trabalhando em uma agencia de viagem fazendo roteiros personalizados. Eu estava (e ainda sou) tão viciada em viajar, que eu tinha que me manter envolvida com o mundo das viagens.

Meu sonho simplesmente era inspirar as pessoas a viajar, tirá-las da sua zona de conforto, incitá-las com uma curiosidade e desejo de explorar. Mas a verdade é que muitas pessoas não querem sair da sua zona de conforto. Elas não querem explorar. Elas querem um hotel confortável (e as vezes opulento), lojas para comprar, restaurantes para comer e um museu para ver e assim ter assunto para conversar com seus amigos. Porque talvez será um hotel melhor, um restaurante mais novo e uma exposição ainda mais incrível. Sim, as vezes me frustro porque as pessoas não sentem o sentido de um lugar, não tem interesse pelo exótico e as vezes sequer respeitam hábitos diferentes dos delas. Eu só queria dizer pra elas que o verdadeiro crescimento está fora da zona de conforto. Mas para isso, é preciso estar munido de uma mente aberta, um coração graúdo e uma visão desapegada do mundo. Veja você, é tudo uma questão de percepção. Leve uma pessoa de coração e mente abertos para Delaware e ela encontra um belo parque. Leve uma pessoa fechada e mau resolvida para o Butão e ela reclamará da comida. O que posso dizer? Tem que estar dentro de você.

porque viajo

Venho me perguntando porque viajo e porque tenho que ter viagens na minha vida. Eu viajo para maravilhar-me e admirar-me. Para abrir meu coração e meus olhos para novas belezas e novos conceitos. Para estudar as idiossincrasias dos povos, as quais a internet, TV e jornal jamais conseguirão me contar. Porque quero ouvir deles.

Eu viajo para fazer coisas que a rotina em casa não me permitiria. E para sentir-me viva. Para diminuir a velocidade do tempo, acentuar os meus sentidos, ser recebida, bem-vinda e acolhida. Para ser encantada e fascinada.

porque viajo

Eu viajo para correr riscos, para experimentar o novo, para sentir-me grata, para preencher as lacunas e colorir o livro da vida. Para ter mais compaixão, e apesar de talvez não ver o mundo inteiramente mais claro, eu vou, certamente, enxergá-lo de forma mais verdadeira. Porque algumas coisas, precisamos ver para sentir, viver para compreender.

Eu viajo para descamar minhas idéias, crenças e certezas. Para ver as coisas que eu achava que entendia de uma nova maneira. Viajo para me chacoalhar, valorizar as pequenas e grandes coisas e para ser grata uma vez mais.

porque viajo

Eu viajo para tentar penetrar nas complacências das pessoas, seus desejos e dilemas. Para saber que temos todos os mesmos desejos e questionamentos. Para não me sentir só. E depois para sentir-me só.

Viajar ainda é o melhor instrumento para construir pontes, derrubar muros e recuperar o aspecto humano dos lugares.

porque viajo

Viajo para vestir um novo olhar e levar um novo olhar para as pessoas que encontro ao longo do caminho. Para viver simplesmente e de forma mais simples. Para improvisar e ceder ao acaso e ao inesperado.

Eu pensei que viajasse atrás de respostas. Hoje tento apenas achar melhores perguntas. Viajo para lembrar-me. Lembrar-me da energia superior, da bondade das pessoas, da graça, da sutileza e da beleza. Para lembrar das coisas que me elevam e me permitem oferecer o melhor de mim pra o mundo.

porque viajo

Eu viajo para me apaixonar, uma e outra vez. Como na paixão, você se surpreende consigo mesma e tem uma vontade incessante de descobrir aquilo que te fez cair de amores. E se viajar é amar, ele é também um estado elevado de consciência, onde não há como não sentir-se vivo, destapado, sensível, e pronto para ser transformado.

Como qualquer outro trabalho, há alegrias e frustrações. O retorno financeiro é irrisório, mas viajo aqui e ali. Talvez eu não consiga fazer com que as pessoas saiam da sua zona de conforto, mas se vendo viagens, acho que estou contribuindo para seus sonhos e quem sabe até para uma mudança, por menor que seja. Então estou feliz por facilitar essa mudança, mas talvez eu esteja apenas fazendo roteiros e reservas de hotéis. Vai saber…

Bem, querida Cindy. Sou grata por ter uma amiga do outro lado do mundo que me lê e quem sabe até me entende.

Ah, te falei do Ludovido Einaudi? Ele é meu pianista preferido.

Te desejando saúde, alegria e paz de espírito.

Sua amiga,

Adriana

porque viajo

4 thoughts on “carta para Cindy, a dor e delícia de ser agente de viagem e porque viajo

  1. boa noite, Adriana’não no conhecemos, mas fiquei muito emocionada com sua carta, e sensibilidade. Viajo muito, mas sempre viagens óbvias, as que a gente já vai sabendo o que fazer e o que encontrar.MAS , NESTE FINAL DE SEMANA FUI A UMA CIDADEZINHA DO INTERIOR DE MINAS GERAIS E FIQUEI NUMA SIMPLES POUSADA E CONHECI PESSOAS MARAVILHOSAS E QUE ME FIZERAM REPENSAR MEU MODO DE VIDA. PARECE QUE AGORA ENTENDI , O QUE É VIAJAR. PARABÉNS PELO SEU TRABALHO. UM GRANDE ABRAÇO, ANA

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