Ásia

Bali é mesmo um paraíso?

“Se isso for Bali, vou voltar pra Tailândia.” Murmurei impaciente. Australianos embriagados se abraçavam desequilibrados, apalpavam a bunda das companheiras, o trânsito e as ruelas mal iluminadas pareciam um grande camelô e tudo aquilo me irritava.

Esta não era a Bali que eu tanto ansiava.

Viajávamos há 8 meses e a exaustão dos deslocamentos e planejamentos já mordiam meus calcanhares. Como Gu tem amigos que frequentam Bali e um conhecido que mora lá, deleguei os primeiros dias na ilha. Felizmente só os primeiros dias.

O trânsito e os carros de janela aberta e música alta na rua principal de Kuta já me deixaram um pouco atormentada, afinal, eu não buscava bagunça naquela ilha promissora. Mas era uma sexta ou sábado, então dei um desconto. A expectativa era grande e a lição de não julgar um lugar pela primeira impressão já tinha sido aprendida.

Saímos para fazer um reconhecimento de área, comer alguma coisa e quem sabe até encontrar uma daquelas massagens baratas que só o sudeste asiático oferece.

Mas a cada quadra percorrida, as músicas de pop comercial berrando dos bares, adolescentes irritantes, roupas curtas demais e peles branquelas com manchas vermelhas de sol faziam a minha ideia de Bali desmoronar como a onda que destrói o castelinho de areia de uma criança.

Compramos uma cerveja, que pelo menos não estava tão quente, e seguimos. Tinha que ter uma visão melhor mais adiante. Tinha que.

Mas tudo ia piorando a medida que os Australianos começavam a se jogar uns em cima dos outros, e cada rua mais jovens indonésios ofereciam uma milkshake de cogumelo (que é legal por lá).

Gu insistiu em ir até a praia, como se lá estivesse a salvação. Mas nem a praia me deu um suspiro de esperança. Os vendedores repetitivos, o cansaço. Tudo ebuliu, causou até uma discussão entre nós e assim voltei “pra casa” com fome e xingando Bali. Era melhor eu voltar para o meu livro e na manhã seguinte tentar entender esta ilha.

E assim fiz. Acordei cedo, determinada a compreender um pouco melhor sobre Bali e as diferentes Balis que a ilha oferece.

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Quinze dias depois, apaixonada por umas destas Balis e decepcionada com outras, cheguei a conclusão que a Bali que você verá em uma curta ou média estadia é difícil de penetrar na cultura e se você não buscar com carinho o que você gosta, pode não ser a ilha com que você sonhou. Por isso alguns fogem assustados nos dois primeiros dias, uns se esbaldam com os prazeres facilmente acessíveis e outros exploram. Eu tive que buscar a Bali que tanto me encantou.

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Mas se na alta estação falta água e luz, em geral muitas praias têm lixo e o trânsito é caótico o ano inteiro, porque Bali ainda é considerada um paraíso? Eu divagava. Pra completar, assim como a Tailândia, Bali tem muitas facetas ultra turísticas.

Depois de ver algumas praias belíssimas, outras sem graça, muita gente bêbada nas ruas, bares e pubs nojentos, comer peixe fresco, reverenciar o pôr do sol, testemunhar momentos de fé diários, me irritar com os vendedores de cogumelos alucinógenos, babar com as estampas dos sarongues e ver toda esta falta de estrutura, fiquei pensando, porque tanta gente frequenta Bali há anos? Porque muitos destes estrangeiros até fixaram residência aqui?

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Depois de ler “Fragrant Rice”, não só entendi muitos aspectos da cultura balinesa, mas compreendi também porque pessoas como a dona do Casa Luna e do Yoga Barn largaram tudo para morar em Bali.

Ir para Bali é fácil. A promessa de belas praias, surfe, comida saborosa, templos, redutos de ioga, natureza, macacos, hotéis maravilhosos, rituais, arrozais e arte a preços que te fazem se sentir um rei, fazem de Bali o destino perfeito.

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Voltar é que é pra quem ama mesmo. Ok, tem muita gente que volta pelo surfe. Mas quem volta pra Bali pelo o que ela é, é porque enxergou além dos defeitos e viu que os charmes da ilha superam os problemas.

Muitos dos turistas que vão a Bali (como em muitos outros lugares do mundo) são aqueles que ficam entre hotéis e praias, sem muito interesse pela cultura local, discutem por centavos ao comprar um sarongue sem sequer tirar os óculos Gucci da cara (sem a sensibilidade de que aqueles centavos representam muito mais para os vendedores), não dão uma gratificação aos guias depois de fazer um trekking, mesmo que estes tenham impedido que eles caiam dos arrozais íngremes e ficam putos da vida quando um macaco rouba aquele óculos Gucci, mesmo depois do guia falar que isto poderia acontecer. Estes são os que visitam Bali, ticam da lista e agora querem conhecer as praias Tailandesas ou voltar pra St. Tropez, que é legal de contar na mesa do restaurante quando voltam pra casa.

As praias vão sempre encantar, o charme das lojas de Seminyak e os cafés de Ubud também. Mas para voltar e amar Bali, apesar dos seus defeitos é pra quem enxerga suas entrelinhas.

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O povo balinês é lindo por dentro. Talvez não tão puro quanto os Laocianos, mas sorridentes como os tailandeses. Eu não vi ninguém ríspido nem de mau humor e sempre fui tratada com carinho. Qualquer gorjetinha e um terima kasih (obrigada em bahasa) provocam sorrisos, muitas vezes sem dentes, a esticarem nos rostos. O balinês sorri com os olhos. E ele aceita. Não sei se é ignorância (lembram que ignorance is bliss?), mas senti que os balineses não lamentam nem protestam como nós Ocidentais. Se não tem luz, tem vela. Se não tem água, espera-se a chuva. Tem trânsito, esperamos, tentamos por aqui ou é isso mesmo. A chuva não parou, faz bem para a plantação de arroz. Eles aceitam coisas que não podem mudar, o que é uma sabedoria. Aceitam até coisas que podem mudar, mas isso pode ser escolha ou insipiência.

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Passeando por Ubud ou pelos vilarejos durante um trekking pela manhã você verá oferendas sendo colocadas nas ruas, nas praias, em frente aos estabelecimentos. Bali exala rituais. Templos decoram toda a ilha com diversos festivais e procissões que alegram as avenidas. Majoritariamente hindu, eles acreditam em carma, portanto, existe uma confiança no ar. Afinal, quem mal faz, o mal receberá. Borrifadas de cores e cheiros pelas ruas, templos e casas através destas oferendas nos lembram sempre da devoção e fé do balinês.

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A sensação que tive é que os balineses apreciam, prezam e valorizam a vida e por isso sou grata por mais esta lição e dose de energia que recebi por lá.

O constante contato com a mãe natureza deixa a ilha mais mágica. A paisagem, sempre mutante, oferece diferentes matizes e elementos – água, terra, verde, turquesa, madeira, montanhas, frangipanis. Os arrozais de Tegalalang e Jatiluwih, a paz de Ubud, o vulcão Monte Agung, a vista da praia de Uluwatu do templo… tem esmero para cada olhar.

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Com ingredientes contrastes e vivos, a culinária é uma viagem por si só. Frutas perfumadas – jaca, lichia, mangas. O molho de sambal picante, amendoim, tofu e verduras. Dos restaurantes badalados de Seminiyak aos cafés vegetarianos de Ubud, a comida balinesa é fresca, viva e ardente. Uma aula de culinária só deixa a estadia mais inteira.

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Não é só com os pés na terra que se aprecia Bali. Debaixo d’água, o encontro com este outro mundo navegando águas cristalinas nos deixa mais humildes. Há todo um outro universo ali.

E o compasso da vida? Lá tudo tem outro ritmo. Claro que muita gente já move os dedinhos sobre telas de celulares, mas a comunicação ainda jurássica – conversando com os vizinhos na rua e nos encontros nos templos é a mais praticada. A sensação do tempo é que ele é elástico.

Uma versão rústica, simples, bucólica e de vilarejo do sul da Califórnia, Ubud tem a forte cultura da ioga. Seja na praia, na grama, em estúdios ou hotéis, você encontra todo tipo desta prática milenar. E foi no Yoga Barn que eu me entreguei, pausei e me re-energizei. Quando penso em fugir, é pra lá que quero ir.

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As flores e o florescer de Bali fascinam com o olhar e olfato. Orquídeas e frangipanis enfeitam paredes, pratos, cabelos, oferendas, jardins…

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Sentir Bali é uma sobrecarga sensorial. Sarongues e kebayas estampadas, incenso, torres de frutas, olhos expressivos de dançarinas de legong, a música gamelan, e os berros da dança kecak anunciam a importância e quem sabe o êxito da fé sob todos os aspectos da vida.

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O maior mercado de turistas de Bali é o Australiano. Eles podem ir a Bali porque tudo é barato, mas se eles quisessem praias belas e puras, eles ficariam em casa. É o povo, a cultura e a joie de vivre dos balineses que faz eles voltarem.

(Em breve um post sobre o que ver em Bali.)

10 thoughts on “Bali é mesmo um paraíso?

  1. brilhante seu Post Tete, sensível e original, é disso que precisamos! AMO LER E APRENDER COM SUAS EXPERIÊNCIAS, QUE FOGEM DO CONVENCIONAL E DO ESTILO “SO PRA RISCAR DA LISTA” DE VIAGEM. vc tambem acha que esse papo de viajar virou onda, e a essência do que é viajar foi esquecido? sei la, a mim parece que a simples ideia de viajar virou sinonimo de ostentação, de tirar foto descolada para perfil de rede social. Por outro lado, vejo seu esforço de resgatar a ideia original, indo além e sendo sincera contigo mesma e com o mundo. Parabéns.
    um abraço.

    • obrigada! a essência de viajar, invisível aos olhos, não é percebida por muita gente ou vem se perdendo.
      realmente as redes sociais nos desconectam do real, do momento. temos que ter equilíbrio.

  2. Olá tete lacerda, Bom dia!
    Sempre ouvi dizer que os hotéis em Bali são ótimos e com preços ótimos.
    você tem alguma sugestão? Os bons que pesquisei e me foram indicados não tem o preço tão bom assim.
    Quero um hotel na praia de Jimbará, Seminiak, Legian ou Nusa Dua.
    alguma indicação de motorista?
    Obrigada.
    um abraço

    • Olá.
      Eu fiquei em hotéis de luxo com os Aman Resorts e Four Seasons e em pousadas, não fiquei em hotel “meio termo”.
      Motorista, super indico o Bobby: +62 816 4736132.

  3. Vivi por 18 anos no Japan e vim a Bali apenas para fazer uma visita de 1 mes, realmente qdo cheguei tive a s mesmas impressoes , mas com os dias passando , aprendendo a falar o idioma digo de coraçao que amo este pedaço de chao, larguei minha vida no japan e ja faz oito anos que vivo aqui, conheço a ilha , bem como muitas outras e tornei-me guia turistico , tenho prazer em mostrar e como andar em bali, este paraiso mudou minha vida, quer um conselho qdo chegar em bali, nw fique comparando a outros lugares que ja tenha ido, bali e unica, posso ajudar a qquer um que tenha interesses visite minha pagina no face gecko bali tour , obrigado

  4. Tive a mesma impressão quando cheguei em bali, bem como no vietnã, porém com o tempo vai se tornando um lugar incrível, logicamente que não comparo a tailândia por essa ter praias muito mais bonitas no geral e um “apelo ” turístico extremamente mais forte, porém bali é singular, e isso que faz dela especial, gosto muito do sudeste asiático e logo voltarei desvendar mais um pouco de bali, devemos ir de mente aberta e nos jogarmos na aventura =)

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